Núcleo Memórias do Morro Grande
Realização: Coletivo Memórias do Morro Grande
Entrevista de: Paulina Paviani Pinheiro [R/1]
Entrevistado por: Vitor Stalmann
Presentes no dia: Vitor Stalmann [P/1], Simone Pinheiro [P/2]
Local/Data da Entrevista: São Paulo, 02 de fevereiro de 2022
Código: HMG_HV001
Transcrito por: Vitor Stalmann
Data da Transcrição: 28 de dezembro de 2025
P/1 — Pronto. Está gravando. Bom, então quero que você fale o seu nome completo, sua data de nascimento e se você aceita ser gravada.
R/1 — Sim. Meu nome é Paulina Paviani Pinheiro. Tenho 76 anos, vou fazer 77 esse ano. E... o nascimento é 14 de abril de 1945. E estou assim, fazendo essa reportagem para um amigo. Espero que seja bem-sucedido nessa história, uma história meio longa, mas a gente vai contar os pedacinhos, as coisas mais ou menos, porque se for contar tudo é muita coisa. Os mais importantes. Assim a gente vai favorecendo a você, que seja bom para você, que você tenha sucesso nessa reportagem.
Espero que eu sirva, sim, para te ajudar.
P/1 — Obrigado.
R/1 — Está sendo uma satisfação para mim também.
P/1 — Pra mim está sendo uma satisfação também.
R/1 — É, porque é uma história de vida, né? É uma história de vida, praticamente eu vim para cá em 1948, eu vim com três anos para cá, convivi aqui, aqui era tudo mato, não tinha rua, não tinha casa, não tinha luz, não tinha água, não tinha nada. Então, eu... praticamente eu nasci na Lapa. Mas meus pais trabalhavam, né? Em casa de família, né? Então, depois meu tio veio para cá e influenciou meu pai a comprar um terreno aqui também, que na época era um precinho razoável. Aí meu pai comprou. Comprou e logo aqui, né? Aqui nesse buraco. Mas, minha mãe falava: "ai por que não comprou lá em cima?". Aí meu pai falava: "lá em cima não para uma galinha em pé, com o vento". Aí minha mãe falava: "mas aqui embaixo o pato morre afogado, porque tem tanta água que desce aqui embaixo". Mas tudo bem, passou, passamos muita dificuldade. Aqui não tinha condução, não tinha nada. Então, meus pais saíam para trabalhar cedo. Voltavam à noite. Quem cuidava era meu irmão mais velho, que cuidava da gente. Para fazer comida, cozinhar feijão, era na lenha, poço, tinha poço. Eles saíam cedo, mas na época também não tinha condução. A condução era a pau de arara, que era situada ali na igreja da... Brasilândia. O Largo da Brasilândia, ali, tinha uma igreja e tinha os caminhão, que as pessoas que iam trabalhar, pegavam e ia até a Pompéia. Da Pompéia que pegavam outra condução e ia pro trabalho deles, né? Então era essa a vida. E vinha de noite. Aí quando chegava de noite, a minha irmã as vezes não tinha cozinhado, ou tinha demorado para pôr o feijão no fogo, que era lenha. O feijão estava duro. Minha mãe ficava brava. "Ai, ai, feijão duro". E nós garrava a brincar, sabe, como é criança. E às vezes esquecia de pôr o feijão no fogo. Aí minha mãe dava bronca. Então era uma vida, né? E, assim, aqui era tudo plantação de cenoura. Depois, de uns tempos para cá, era tudo plantação de cenoura. E a gente... O meu irmão, então, sabe o que ele fazia? Brinquedo. O brinquedo nosso. Ele pegava a cenoura, cortava, fazia cadeirinha, fazia mesinha. Tudo de cenoura. Para mim. Para mim brincar. Aí, depois, quando chegava de tarde, começava a escurecer, escureceu tudo, tudo dentro de casa, né? Aí a gente... Punha tudo dentro de uma lata. Aí chegava o outro dia, a cadeirinha estava toda murcha. E de noite, de noite, aquela escuridão terrível. E a gente só escutava o quê? Piá de coruja. E aquele pássaro urutau. Ai, eu tinha medo. Até hoje eu tenho medo. Ele tem um canto tão feio de noite, sabe? E eu tinha medo. Nossa Senhora. E aquele barracão coberto de zinco. Quando chovia, misericórdia. Quando dava vento, o meu irmão tinha que agarrar, amarrar com uma corda lá, antes da telha ir embora. Minha mãe, quando veio para cá, ela até chorou. "Meu Deus, você comprou terreno nesse lugar?" Era o único que a gente podia. Não tinha condição. Aí trabalhava, isso, aquilo. Aí foi, foi, foi indo. O primeiro Natal, ele falou: "a gente não tem nada para comer, assim dizer, né? Uma carne, não tinha nada mesmo. Bem pobre. Mas o ano que vem, a gente vai ter verdura, a gente vai ter carne". Aí foi. Foi trabalhando, a gente ficava sozinha. Ele fez um forno, um forno de barro, e começou a criar cabrita. Foi no Natal que a gente teve um cabrito. Ele matou um cabrito, foi assado. Minha mãe fazia pão, fazia bolacha, nesse forno. Então foi, a gente foi, graças a Deus... comida, não faltou. Porque tinha verdura. Tinha chuchu, tinha abóbora, tinha tudo. Tinha cabrita, tinha porco, tinha galinha. Então ele saía cedo para ir trabalhar, e nós ficávamos cuidando. Nós tínhamos, cada um tinha sua tarefa. Era cuidar de galinha, dar comida para os porcos, dar água para os porcos, lavar chiqueiro. Ai eu gostava de lavar o chiqueiro. Ai, como eu gostava, ficava sujo assim, sabe? Que porco, você sabe, né? Porco é porco, né? Então eu jogava água assim, ficava, aquele assoalho, que é de madeira, ficava limpinho, porque eles, com casco, eles raspam com casco, e a madeira fica bonita, branquinha, sabe? Aí eu lavava assim, ficava bonito o chiqueiro. Então, aí ia buscar... levar água para as cabritas, lá no pasto. Aqui mesmo, na vila aqui mesmo, tinha um lugar que era, agora é escola Clodomiro Carneiro. Mas antigamente não tinha nada, era pasto. Aí ia levar água para as cabritas, ia buscar as cabritas. As cabritas começavam, dois pingos, aí se escambelhava de berrar, sabe? Aí a gente tinha que correr, minha irmã correr lá para pegar as cabritas, e a gente estava desmanchando o nó lá, e ela "bam!", sabe que cabrita era meia doida, né? Dava aquele solavanco, e para a gente não perder, e o nó poder desatar, eu dava a volta assim na cintura, com a corda, para poder desatar. Então, quando ela dava aquele solavanco, eu apertava na minha barriga aquela corda, sabe? E aí eu conseguia desmanchar o nó, aí eu soltava a corda, ela vinha que nem uma louca para baixo aqui, sabe? Aí entrava tudo aqui. E era desse jeito a nossa vida. E o esterco? Ah, tinha que pegar esterco também, para por lá na horta. Eu e mais uma amiga minha, que também, depois de muito tempo, ela veio morar aqui, a gente ia lá no pasto, lá em cima, catar coisa de cavalo, né?
P/1 — Qual o nome da sua amiga?
R/1 — Da minha amiga? Zelda. Então, aí nós ia buscar esterco, pegava aquele sacão, pegava com a mão, pegava com a mão, assim, pegava com a mão, enchia aquele sacão, assim, saco de estopa, botava nas costas e vinha, vinha com a mão toda verde. Você imagina, né? Vinha pro chuveiro. Aí a gente jogava lá, o coisa, e depois ia debulhar. Debulhar tudo, aquela coisa de cavalo, para jogar nas hortas. Aí a gente jogava nos canteiros, sabe? Aguar a horta. Tinha que aguar a horta também, né? Porque cada um tinha a sua tarefa. O meu irmão também tinha a sua tarefa, de ajudar, de cuidar. Nas horas vagas, a gente ia brincar de carrinho de rolemã, porque depois, já tinha... Veio mais moradores, né? Aí já começaram a carpir, fazer trilha, assim, né? E ali em cima tinha uma descida, que até agora tem, mas não é tanto que nem na época. Aí a gente ia brincar de carrinho de rolemã. Eu e o meu irmão. Chegava lá, pegava o vestido, botava assim no meio, puxava a ponta, assim. Meu irmão atrás, eu sentada na frente, ele segurando, assim, descia aquela ladeira. Oh, coisa boa! Que infância boa, viu? Não posso reclamar. Nossa infância foi bonita, foi alegre. Não tinha nada de dizer "ai... malandro". Não tinha. Não tinha. Os poucos moradores que tinha, que depois começaram a vir, eram tudo gente... honesta. Não tinha essa safadeza que tem agora. Você não pode deixar um filho que... um marmanjão vai e mexe, né? Antigamente, não. Então, era uma vida boa. Não vou dizer que não... Foi uma infância feliz, foi.
P/1 — Tinha muita gente morando no bairro já?
R/1 — Olha, acho que tinha... Quando a gente veio morar pra cá, acho que tinha umas três casas. Depois é que começou a aumentar mais. Aí, mais pra frente, meu pai, então, muito inteligente. Vou dizer que é inteligente, meu pai é inteligente.
P/1 — Qual o nome dele?
R/1 — Agostinho. Veio pra cá sem lenço, sem documento. Com nada. Então, foi indo, foi plantando, foi criando, foi... Até cavalo a gente tinha. Que... A minha mãe... Foi uma época que a minha mãe queria... pra construir, ela precisava dos tijolos. Ali, mais pra frente, agora é tudo casa, tinha olaria. E essa olaria, o homem, ela encomendou os tijolos. Ele não entregou os tijolos. Ela foi lá e catou o cavalo dele. Cavalo não, uma égua. E falou: "a hora que você trouxer os tijolos, devolvo sua égua". E foi assim. Então, a gente tinha essa égua, tudo aí. Depois, acho que entraram em entendimento lá, e ela devolveu. Mas, tinha essa égua aí. E era essa batida, sabe? A gente não... Não dizer que não... Foi uma época dura, uma época difícil, né? Mas...
P/1 — Quando vocês se mudaram, quem que veio? Você, seu pai, sua mãe...
R/1 — Veio eu, pequenininha, veio a minha irmã e meu irmão. E a minha mãe, né? Então, foi aquela... uma época assim, meio dura, mas depois foi melhorando, graças a Deus.
P/1 — Seu avós vieram junto?
R/1 — Não, meus avós ficaram lá no interior. Eles não ficaram... Não vieram pra cá, não. E depois a gente foi praticamente... evoluindo, né? Evoluindo. Mas, assim, deixa eu ver se eu me lembro mais de alguma coisa assim, de... Ah! Eu falei que meu pai era inteligente? Comprou uma vitrola. Sabe aquelas vitrolas de corda? Então... Ah, ele comprou uma vitrola de corda. Ai, meu Deus! Era só nós que tinha ali. Tinha umas três casas aqui e a vitrola de corda. Aí, vez em quando, quando sobrava dinheiro, ele comprava um disco. Aí eu falava pro amigo dele, que tinha o amigo dele que morava lá em cima. "Aí eu comprei um disco. Vamos lá em casa". Aí vinha a mulher, vinha o filho, vinha o marido, vinha tudo em casa lá pra escutar o disco que a gente tinha comprado, né? E isso, a gente já tinha saído daquele barracão, já tinha feito a casa de pau-a-pique. Que é casa de barro mesmo, né? É taipas que fala, né?
P/1 — Taipa de mão, né?
R/1 — Que é feito com madeira e colado com barro, né? Barro e depois passa um cal, fica bonito. Parece uma casa assim de tijolo mesmo, né? Então, aí vinha, aí quando chegava no final de semana: "Ai seu Agostinho, vamos fazer um baile ali em casa, vamos?" Aí ia pra lá, catava essa vitrola nas costas, ele e outro amigo lá ia pra casa lá, levava os discos lá pra fazer baile. Aí fazia baile, a mulher fazia um bolo, fazia aqueles licor, né? Licor de anis. Aí era criança, né? Era um cheiro assim. Tinha vontade de beber aquele licor, mas criança, né? "Não. Você não pode, você não pode porque você é criança".
P/1 — Quantos anos você tinha?
R/1 — Ah, eu tinha o que? Uns sete, oito anos, acho, mais ou menos. Por aí. Aí tinha as crianças dessa pessoa também. Então era desse jeito, sabe? E a gente foi indo, foi indo, a gente foi crescendo. Mas é muita coisa. Aqui em cima tinha tanto a cenoura, plantação de cenoura, quanto plantação de abóbora. E tinha um senhor também que ele vinha de noite roubar abóbora. As vezes nós estávamos brincando, tinha uma outra casa aqui também, aí a gente ficava brincando de noite de esconde-esconde. Mas era só ali naquele pedacinho, porque era uma escuridão danada. E as vezes a gente escutava barulho, sabe? Olhava, noite de luar, a gente via aquele grandão lá que o apelido dele era Peroba. "Ah, lá o Peroba, alá o Peroba". Nós morríamos de medo, né? E nós corríamos tudo pra dentro. Ele ia roubar abóbora. E a gente via, dava pra ver assim, vulto, né? Vinha roubar abóbora. Aí passou um tempo, nós tinha galinha também, né? Tinha um galinheiro, já tinha essa casinha aí, né? E de noite ele vinha roubar galinha. Aí quando eu escutava as galinhas fazerem barulho, meu pai tinha um trabucão, sabe? Uma espingarda. Aí ele fez o quê? Ele cortou um quadradinho assim na porta e ele botava o cano na porta, assim. A hora que ele viesse catar a galinha, ele ia dar um... como é que é? Não é bala, é pólvora. Acho que é pólvora. Faz um barulhão, mas não faz nada. Aí ficava aquele fumceiro e tudo, mas não fazia nada. Então, aí meu irmão então... Aí meu pai falou: "aí eu vou fazer uma armadilha". Ele pegou um sino, que até hoje eu tenho um sino aí, se você quiser tirar uma foto do sino também, porque aquele sino lá, porque tinha muita vaca, cavalo e acho que eles perderam. E meu irmão pegou esse sino. Então ele falou "eu vou fazer uma armadilha". Ele pegou um barbante, amarrou no portão do galinheiro e levou lá na cozinha, porque na cozinha era metade de taipas, aí tinha um pedacinho que era de madeira e tinha telha. Aí ele enfiou, assim, o barbante lá na porta do galinheiro e a gente ficou aqui aguardando. "Assim, quando ele for mexer no portão, vai tocar o sino". Aí foi dito e feito. Começou a balançar o sino, meu pai saiu com o trabuco lá e o sino [barulho] disparou lá, porque ele abriu o portão com tudo e meu pai lá com aquele mosquetão lá, ficou só fumaça. Também o cara nunca mais, viu? Nunca mais, e até hoje eu tenho o sino aí. Desse susto não voltou mais, mas era desse jeito, sabe, a gente era bom. Não vou dizer que... Foi uma infância boa.
P/1 — E na sua adolescência, você manteve um bairro interior, teve mais casas, vieram mais famílias?
R/1 — Vieram mais famílias, aí foi aquela para vir a luz foi aquele abaixo-assinado para as pessoas que moravam para pôr luz na rua.
P/1 — Então na sua infância não tinha luz?
R/1 — Não tinha, era lamparina, eram aquelas lamparinas. Aí a minha mãe pegava, além de trabalhar fora, ela pegava um serviço de uma fábrica de botão e trazia aquelas cartelas de botão para a gente pregar botão, aquelas cartelas. E de noite a gente reunia todos os filhos para pregar botão, com a lamparina. Chegava no outro dia, estava todo mundo com o nariz preto por causa da fumaça da lamparina. Então, aí pregava botão. Ela pegava e levava para lá, trazia. Quer dizer, a nossa distração era pegar botão na cartela. E aí foi, não foi, não sei que adolescência assim, meninice, era coisa de criança mesmo, mas chegava de noite, era... Depois meu pai comprou, não era a lamparina, era um lampião de carbureto. Aí botava umas pedrinhas, acho que umas pedrinhas que ele pôs lá dentro, e ficava "fuc, fuc, fuc", aquele negocinho lá, acho que para fazer gás, não sei o que que era. Aí ficava que era que nem uma luzinha, sabe? Assim, imagina, era lampião de carbureto. "Ah, nossa senhora, ai o Sêo Agostinho tem um lampião de carbureto", então fica bem claro, sabe? Porque era lamparina. Aí foi indo, foi indo, aí fizeram abaixo-assinado para vir luz. Aí puseram uns eucaliptos, né, uns coisas de eucalipto, poste de eucalipto, e luz, mas luz, dessas assim, dessas de cozinha, era uma luzinha dessas aí, num pedaço, no outro pedaço, era só isso aí.
P/1 — Nessa rua eles colocaram, né?
R/1 — É, foi colocado aqui. Aí depois passou, passou, aí mais pra frente a gente já, quer dizer, trabalhando, a minha a patroa da minha mãe também emprestou dinheiro pra construir aqui na frente, na casa de tijolo. Aí emprestou dinheiro, emprestou dinheiro pra pôr a telha, sabe? Então até um parente nosso veio uma vez aí, né? Aí falou assim: "ah, fez empréstimo, não sei o quê, emprestou dinheiro, e agora, quando tiver com fome, come o quê? Tijolo?" Foi a Ira. A Ira falou isso aí, eu não esqueci até hoje. Então, você vê, quer dizer, foi, graças a Deus, pagou tudo direitinho, fizemos a casa, aí veio o pôr poste mesmo, sabe? Pôr poste mesmo de cimento. Aí a gente teve que pagar, via carnezinho pra pagar esse poste que tava aí.
P/1 — Que ano que foi?
R/1 — Ai, não me lembro. Isso, eu tinha o quê? Uns 13 anos, 12, 13 anos, por aí. Aí foi. Depois, mais pra frente, demorou muito pra vir asfalto. Também foi abaixo-assinado, foi feito. Mas antes do... Era córrego, né? Aqui era córrego. E às vezes enchia de areia, porque lá em cima vinha muita areia. Aí as águas entravam nas casas. Aí meu pai pegava lá da ponta lá, vinha limpando, limpando, limpando até lá embaixo na esquina. Pra tirar aquela areia pra poder acomodar a água da chuva, porque era muita água. Inclusive até hoje é bastante. Aí passou, passou, passou, aí veio o asfalto. Muito também, muita luta, muito abaixo-assinado. Veio o asfalto. Também carnezinho pra pagar o asfalto. Que hoje em dia já não tem mais isso, né? Eu acho que nem tem mais isso. Então. Mas aí veio carnezinho pra pagar o asfalto. E a gente, meu pai também pagava o terreno, né? Tinha até um monte, um monte de recibo escrito a lápis. Não era caneta, era lápis. Eu nem sei pra onde que foi parar aquele feixe de promissória, assim, recibo. Uma letra bonita, sabe? Que o corretor morava lá no fim dessa rua aqui. Uma letra bonita, mas tudo a lápis. Aí foi indo, foi melhorando. Aqui a vila.
R/1 — Onde vocês estudavam?
R/1 — No Clodomiro Carneiro, mas era ali em cima. Não tinha... Tem o cinema. Então, do lado não tinha um prédio lá que era de uma escola?
P/1 — Eu não sabia. Eu vi a planta e estava escrito Grupo Escolar, mas eu não sabia. Desmancharam. Então. A gente estudou lá. Mas eu e a minha irmã ainda estudamos lá. O meu irmão não tinha escola aqui. Ele ia estudar lá na Freguesia. Lá perto do cemitério. Tem uma escola, não sei nem como chama aquela escola lá. Ele ia estudar lá. Ia a pé, daqui, lá na Freguesia. Estudar lá. Então, e nós aqui, depois fez aqui o Grupo Escolar Clodomiro Carneiro lá em cima. Aí nós ia estudar lá, mas ia...
P/1 — Foi quando?
R/1 — Quer dizer, eu fiz até a quarta série, né? Depois a quarta série. Aí ia fazer datilografia. Aí depois vai trabalhar. Achou um serviço, vai trabalhar. E a gente ia pra escola, menina. Eu e outra amiga também que morava na rua ali da Maria Nazaro. Nós ia pra escola. E a gente atravessava num trilho ali assim, sabe? Um trilho. Tinha um dito de um cavalo amarrado lá. Ele não podia ver gente. Ele partia pra cima. Nós tinha um medo. Aí nós ia devagarzinho, devagarzinho. Quando a gente via que o cavalo subia aquela ladeira que tinha umas loucas lá em cima por causa do medo do cavalo. Não sei o que ele via com nós. Mas eu sei que era desse jeito. Aí foi indo, foi indo. A minha, assim, mais meninice, mais adolescência, com 14 anos. Já... Aí meu pai quando trabalhava lá no cafezal, lá em cima do Thomaz, né? Trabalhava ali. Ele tinha amizade com o senhor lá. Aí ele arrumou serviço pra mim lá. Aí comecei a trabalhar lá com 14 anos.
P/1 — No cafezal?
R/1 — Não, na fábrica mesmo. Porque aí só tinha dois... Tinha duas... Como é que fala? Não tinha toda aquela pedação de fábrica. Era dois. Aí fui e eu comecei a trabalhar lá. Aí trabalhava também. Era uma correria, né? Menina, de menor. Então, quando vinha fiscal, ele escondia a gente lá no refeitório, pra os fiscais não ver, né? Porque... Trabalho escravo, né? Porque criança, né? 14 anos já, tudo bem, é hora de trabalhar, né? Mas não podia, né? Então a gente trabalhava. Era das seis às duas, das duas às dez. A gente trabalhava nesse horário, né?
P/1 — O que você fazia lá?
R/1 — Era ajudante, era ajudante. Porque como eram as máquinas de fazer tecido... De fazer tecido, tinha aquela canaleta, que a gente tem que pôr a linha dentro, encher aquela canaleta com aquelas lançadeiras. Então, era um pedaço que vinha como daqui, lá no portão. Então, quando eu chegava aqui, já estava acabando lá na ponta. Aí tinha que correr lá. Quando chegava aqui, já estava acabando lá. Eram oito horas desse jeito. Eu não sei como minhas pernas não estão pipocadas de varizes, porque olha, eram oito horas desse jeito. E ao almoço, não era almoço, era quinze minutos. Era uma correria. A gente ponhava lá... Às vezes meu irmão, esse mais novinho, ia levar comida lá. Minha mãe mandava levar comida. Então, e às vezes eu levava marmita, a gente esquentava lá que tinha água, né, pra esquentar. E era aquele quinze minutos, aquela correria, né? Às vezes comia, comia. Se não comia, não dava tempo e pronto, né? E era desse jeito. E a gente, de manhã cedo, a gente pegava das cinco às duas, porque tinha que descontar o horário do almoço, né, e do café. Porque já era quinze minutos também de café. Quinze não, dez minutos de café. Então, a gente tinha aquela correria. E de manhã cedo, às vezes, o meu pai ia levar, né, porque tinha medo, né, porque era escuridão, tinha aquela luzinha. Quer dizer, era uma luz, não era fluorescente, que nem agora, né? Aí ele me levava. Ele tinha bronquite. Quando chegava ali em cima, ele tossia tanto. Falei, pai, fica aí, fica, não vai não, deixa. Aí ele falou, vai e sobe aí que eu fico olhando daqui. Aí eu subia naquela ladeira lá. Tinha um trilho no meio do mato, que agora tem tudo casa ali, né? Ali, naquela casa em frente do barquinho ali. Então tinha um trilho ali. Eu subia aquele trilho lá pra pegar lá em cima, né, a rua da fábrica. Quando chovia, antes que não tinha asfalto. Era uma lama. A gente colocava um sapato, um tamanco, que tinha uns tamancão assim, a gente ia com esses tamancão, e quando chegava lá em cima, vocês tiravam o tamancão, largavam no meio do mato, porque ninguém pegava. Era uma coisa tão... não tinha ladrão. E a gente deixava lá, e depois quando saia as duas horas, eu pegava. Tanto o meu quanto o da minha irmã também. Deixava lá no meio do mato. E depois o meu irmão também. Quando ele ia trabalhar, ele subia aquilo ali, porque ali em cima já tinha asfalto. Então deixava lá a galocha dele, era galocha, não sei se você lembra, a galocha de borracha. Deixava no meio do mato, quando eu saia, as duas horas eu pegava e trazia pra casa.
P/1 — O seu irmão também trabalhou na tecelagem?
R/1 — Não, ele já não trabalhou. Ele trabalhava numa... era uma metalúrgica.
P/1 — Que tem ali no larguinho, né?
R/1 — Não, era no Bairro do Limão. Ele começou a trabalhar lá. Até hoje, é Serralheria Pérez. Não sei se existe isso ainda hoje. Aí ele trabalhava lá. Aí passou. Na época, aí meu pai comprou uma bicicleta. "Ai, meu Deus do céu, [inaudível] aquela bicicleta". Era uma guerra. "Aí ele, chega, chega, você já... aí é a minha vez, aí é a minha vez, aí é a minha". Eu, como era pequena, não alcançava, porque a bicicleta era alta, porque ele comprou mais a bicicleta pro meu irmão trabalhar. E aí eu enfiava a perna por dentro daquele aro assim e saía, saía. Chegava ali na... tem um senhor também, depois, mudou. Ele tinha ganso, um monte de ganso. Esses ganso partiam pra cima da gente de bicada, por causa que era uma bicicleta, sabe? Quando nós íamos virar lá, assim, aqueles ganso, sabe? Vinha pra cima da gente pra beliscar a perna mesmo. E eles têm uma serra belisca. E nós, ó, com a bicicleta e chutando o ganso, não sei o quê. Era uma diversão. Aí a minha prima sentava atrás da coisa lá. Aí fomos dar volta, assim, por causa dos gansos. Aí [barulho] caiu lá e os gansos em cima. Ô, comédia, viu? Mas era bom. Era bom, viu? E assim que foi passando, passando. E a gente, né, já adolescente, já...
P/1 — A senhora trabalhou na fábrica durante quanto tempo?
R/1 — Eu trabalhei, acho que nove anos e oito meses, mais ou menos. Aí o seu Thomaz, ele perguntou, porque ele tinha intenção de fazer uma banda, né? Se a gente queria, né? Então ele fez uma reunião lá, tudo. E se a gente concordava, se a gente queria, tivesse uma... Aí todo mundo quis, né? Quer dizer, todo mundo não. Alguns mais atrevidos, né? Já outros: "não é isso aí, não é nada". Sabe, tem muita gente que... Mas nós, mais jovens, tudo, e os outros mais rapazes... Aí tudo quiseram, né? Aí fomos. Aí tinha... Chegava de tarde, tinha as aulas, né? Aí a gente deixava o serviço e ia. Quando era pegado das duas às dez, a gente deixava o serviço seis horas, jantava e ia pra escola. E nove horas acabava. Aí nós vinha, ficava lá na firma, fazia uma horinha lá, né? O serviço. Dez horas a gente vinha embora pra casa. E quem não tava no trabalho, saía... Que pegava das seis às duas, então a gente tava em casa. Aí a gente ia daqui da nossa casa e ia estudar. E foi assim. Aí comprou os instrumentos, nossa, foi uma felicidade quando tinha os instrumentos. Nossa, tudo novo, né? Aquela coisa gostosa, né? Aí ele foi aprender a tocar esse instrumento, aquele barulhão, porque ninguém sabia nada, né? Ninguém sabia nada, então foi aquele barulhão, um sopa daqui, um sopa de lá, um bate daqui, um bate lá. Sei que foi indo, foi indo, foi indo, até que as pessoas aprenderam. Aí surgiu as viagens. "Ai, domingo lá vai ter não sei o que lá em Socorro (SP)". Aí ele alugava um ônibus e nós ia pra lá, pra Socorro (SP).
P/1 — Essa foi a primeira viagem que vocês fizeram?
R/1 — Olha, eu acho que foi a primeira viagem, foi em Socorro (SP). As primeiras foi aqui, as retretas, aqui de domingo, né? Primeiro domingo do mês. Então tinha as retretas aí, aí já começou, depois tinha a missa e começaram a convidar. Aí as pessoas já iam pra retreta, depois que terminava ia pra missa. Então foi conhecimento, né? Aí depois começou os convites. Fomos pra bastante lugar, sabe? Água de Lindóia, outro lá pra Socorro, outro lugar que fomos também que eu não me lembro agora. Eu sei que fomos em bastante lugar, sabe? Até pro Rio, foi. Vários lugares, sabe?
P/1 — Qual foi a melhor viagem que vocês fizeram?
R/1 — Ai, eu acho que foram todas. Fomos fazer também uma propaganda de sabão, aí na igreja da... Pirituba. Tem uma igreja bem alta.
P/1 — Do lado da estação de Pirituba?
R/1 — Parece que é. É uma igreja assim, fica no... Aí fomos fazer uma propaganda de sabão também, ó. Filmagem, tudo pra passar na televisão.
P/1 — Que legal! Qual era o nome do sabão você se lembra?
R/1 — Ai, eu não sei se era Sabão Vencedor, aí eu não me lembro bem o nome. Eu sei que era um sabão. Então, eu sei que a gente fez essa propaganda aí, depois fomos pra Aparecida, também fomos pra lá, foi todos os instrumentos, aí fizemos uma apresentação lá. E vários lugares assim que a gente foi, né? Aí com o tempo também a gente casei também, aí já fiquei grávida, não demorou muito de casada, aí eu fiquei grávida, aí fiquei mais um tempo, uns seis meses, aí já vi que não dava mais pra estar frequentando, aí eu pedi pra mim sair, né? Aí saí, mas mesmo assim, mesmo depois que ele nasceu tudo, eu fiquei um pouco, né? Aí na firma também eu fiquei trabalhando, mas depois também ele chorava muito que eu tinha que deixar ele com a minha mãe, e ele chorava muito. Cada vez que eu vinha trazer ele de manhã, que eu pegava das seis às duas, e eu tinha que cinco horas, cinco e pouco, eu tinha que deixar aqui na minha mãe, né? E ele chorava, e ele chorava, aí meu marido falou, acho que é melhor você pedir acordo lá e sair porque não tá dando certo, esse menino ficar chorando desse jeito, e a minha mãe também, né? E ela também ficava preocupada, até acalentasse o moleque, né? Aí eu saí, aí eu fiz acordo e saí.
P/1 — Você ficou quanto tempo na banda?
R/1 — Na banda? Aí eu fiquei um bom tempo, viu? Eu saí em quanto, meu Deus do céu? Olha, eu casei em 1966, 1966. Acho que eu saí em 1968, mais ou menos. Acho que mais ou menos. Fiquei um pouco assim, depois eu fiquei grávida, acho que por aí mais ou menos. Eu frequentei mais um pouco, mas depois aí eu saí. Mas mesmo assim, a gente tinha sempre contato, né? Com as pessoas, ia lá, tinha banda ainda, a gente sempre frequentava tudo. Mas aí também foi diminuindo, né? Muita gente saiu, muitos casaram e saíram, aí ficou mais pros homens, né? Aí foi indo, foi indo, também já foi acabando. Depois também a firma lá também abriu concordata também, acho que numa série de problemas que houve lá, com a pedreira, porque a pedreira...
P/1 — A firma que você fala é a tecelagem?
R/1 — Tecelagem. E a pedreira, ela estourava, nossa, cada estrondo que voava, pedra aqui pra baixo, sabia? Pedra assim, sabe? Voava aqui pra baixo. A casa da minha mãe tinha umas rachaduras imensas. Acho que isso não caiu porque a fundação dela era muito resistente, porque quando ele começou a fazer essa casa da frente, que até tem foto aí, tudo pedra, pedra mesmo, pedra bruta. Ele ia, quebrava pedra lá no pasto, quebrava pedra, meu pai com aquele formão que quebra aquelas pedras, trazia com carrinho, meu irmão, a gente, empurrando o carrinho, fazer o alicerce. Então foi um alicerce muito, muito forte. Isso na casa acho que já tinha caído. Aí foi indo, foi indo, foi indo. Tinha duas pedreiras, aqui e lá.
P/1 — Daqui qual que era o nome?
R/1 — Aqui era do Vega, Pedreira Vega. Aí foi, acho que baixo assinado, foi muita coisa, aí não pôde mais funcionar. Nem aqui, nem lá.
P/1 — Quando vocês se mudaram pra cá, já existia pedreira?
R/1 — Tinha, tinha. Tinha, mas não era assim, de fazer esse estrondo todo, não. Não tinha cinema, não tinha casa, não tinha escola. Foi depois que acho que ele comprou essa gleba aí, fez o cafezal, fez a escola, essa pedreira, aí começou essa pedreira, aí começou a funcionar.
P/1 — Foi mais ou menos em que época?
R/1 — Bom, eu acho que depois que já começaram, foi feito a escola, eu tinha sete anos.
P/1 — A primeira construção, então, foi a escola?
R/1 — Foi, foi a escola, depois que começou a pedreira. Mas a pedreira dava aqueles estrondos mesmo, tremia o chão, porque aqui era brejo, tudo brejo, então tremia o chão. Aí foi muitos anos, muitos anos de pitinga aí pra poder fechar a pedreira. Aí fecharam a pedreira.
P/1 — E você participou do abaixo-assinado também?
R/1 — Olha, eu lembro disso aí, mas foi mais os adultos, os homens, sabe? E mesmo a prefeitura, essas coisas, foi embargado, não pôde mais. Só os que tava quebrado mesmo, que tinha muita pedra quebrada, tinha a britadeira, aquelas máquinas enormes que as pedras quebravam, sabe? Quebrava, aí eles saiam com os caminhões, descia aquela ladeira lá com o caminhão. Até uma vez foi um rapazinho que trabalhava na padaria, eu até vi isso aí. Eu ia indo trabalhar e ele foi atropelado. E quando eu, porque eu sempre comprava um pãozinho naquela padaria lá em cima, e os caminhões desciam com tudo ali. E quando eu tava indo assim, eu vi o rapaz na metade do caminhão, a parte da frente passou em cima. E acho que ele brecou, ele chegou na roda de trás, assim. E tava assim, descoberto, sem nada. A gente conhecia o rapaz, né? Conhecia o rapazinho lá. Então foi uma coisa assim, muita coisa deprimente isso aí, né?
P/1 — Foi mais ou menos em que época que eles finalizaram?
R/1 — Olha, aí eu não me lembro bem assim a época, a data. Assim, quando eu tava trabalhando já há 14 anos, ainda tinha os estrondos lá, tinha. Mas depois cessando, depois foi cessando isso aí, porque foi embargado, né? Foi embargado. E depois foi indo, foi indo, foi indo também, aí foi entrar em concordato também, acho que por causa dos terrenos, eu não sei se falta de pagamento ou de imposto, não sei. Só sei que aquele pedaço foi tudo embargado, aí a firma também já faliu, né? E eu sei que foi acabando, né? Então hoje tá no que tá hoje, assim devido aos contratempos, não sei, acho que falta de organização, falta de... a pessoa não cumprir com a obrigação, não sei, né? Falta de interesse também. Falta de interesse, porque enquanto o pai era vivo, o Sêo Thomaz, o Thomaz Melo Cruz, ele era vivo, ele comandava, né? Como ele tinha outras pedreiras também, a Pedreira Anhanguera era dele também. Então, acho que ele tinha muitos filhos pra cuidar. Na época o filho era um menino, né? Mas tinha os irmãos, tinha a família, né? E diante disso aí também acho que foi, como ele fala, foi bem cuidado, foi bem administrado isso aí, né? Então foi concordata, tá aí, deu no que deu, né? E tá aí abandonado, né?
P/1 — E sobre as construções que tem ali, você lembra quando elas foram inauguradas? Você lembra assim, imagina, a época que elas começaram a funcionar?
R/1 — Assim, dizer, de cinema, de igreja?
P/1 — Do cinema da igreja.
R/1 — Olha, 15 anos eu tinha? 15 anos? 16 anos? Que ano que era? 1955, 54, por aí, acho, mais ou menos. Por aí, de 54, 55. Que eu lembro que tinha a Copa do Brasil aí, era, não sei se era de 55, 54. "Aí, porque tinha o Jogo do Brasil, Jogo do Brasil". Aí, aquela barulhada assim, porque era rádio, nem televisão tinha, né? Era rádio, aí a gente trepava no vitro assim pra olhar. Nossa, agora eu vejo o vitro aqui. Na época, lá em cima o vitro. Aí a gente trepava no vitro lá pra olhar, fora do, que o encarregado não visse, né? Pra gente olhar aqui fora, ver o que, gente? Não tinha nada. Só tinha gritaria de rádio, não tinha televisão, não tinha nada. Assim, do porteiro, que estava lá o porteiro, tinha um porteiro baixinho lá. Até um dia, cada uma... Eu levantava quatro horas, não, quatro e pouco assim. Quando era 3h45, 4h30, 4h45, eu estava subindo, né? Aí, um dia, eu levantei, me troquei e fui, cheguei lá. Aí, o senhorzinho estava lá cochilando dentro da casinha dele lá, com o portão fechado. Aí, eu batindo no portão: "o que é que você está fazendo aqui, menina?". Falei: "eu vim trabalhar". "Menina, é três e meia agora". Eu, pensando que era quatro e meia que eu saí de casa, eu não sei o que eu fiz no relógio lá, que o relógio... Olha o horário que eu saí de casa e saí. Quando eu saía assim, às vezes, que o meu pai não ia, né? Eu falava: "pai, benção, mãe, benção, pai". Aí: "Deus te abençoe". Aí, eu fechava a porta da cozinha e saía. Não tinha perigo de nada, né? Meu pai tinha os cuidados dele, mas aquele dia eu saí. Aí, eu cheguei lá, três e meia da manhã. Falei: "e agora?". Abriu lá a porta do vestiário e eu fui dormir no banco. Fui lá, catei umas caixas de papelão lá, pus no banco lá, com os trouxas de pano que tinha a tecelagem, catei umas trouxas, fiz um travesseiro e fui dentro do banco. Olha! Graças a Deus que não aconteceu nada, né? Não tinha, né? Hoje em dia, cheio de malandro por aí, você não pode nem... De dia mesmo, né? Imagine de noite.
P/1 — E lá na igreja, você frequentava sempre?
R/1 — Sempre. A gente ia nas missas lá, né? Era muito bonito.
P/1 — E como que era a construção lá dentro? Porque agora não tem mais nada, né?
R/1 — É, a construção lá dentro é muito bonito. Tinha aqueles quadros imensos, né? Que era um quadro, acho que era metade dessa parede assim, sabe? Enorme, com pintura. Pintura à mão mesmo, sabe? Muito bonito. Tinha vários quadros, sabe? De como é que é? A via sacra e tinha... mas tudo pintado à mão. Muito bonito. Nos fundos era aquela vidraça enorme que dava pra ver o sol quando descia. Quem estava na missa, quando o sol ia descendo, assim, era muito bonito, dava pra ver. Era muito bonito. Tinha o orgão, né? Que tinha um orgão também lá, que um rapaz que tocava. E as missas, muito bonito. Ia muita gente. Muita gente.
P/1 — E geralmente as pessoas daqui de perto?
R/1 — Da vila. Tudo da vila. Tudo da vila.
P/1 — Quando que era a missa?
R/1 — Era às seis horas. De domingo. Domingo às seis horas.
P/1 — Era só de domingo?
R/1 — Só de domingo.
P/1 — Que legal.
R/1 — E tinha o padre também, que o padre morava numa das casas que o Sêo Thomaz fez. Também ele morava lá.
P/1 — Qual era o nome do padre?
R/1 — Padre Orlando.
P/1 — Orlando.
R/1 — É. Padre Orlando. Também não sei nem... Dessa época já morreu também, já era meio de idade na época.
P/1 — Entendi.
R/1 — Então.
P/1 — E como que era assim? Eu sei que lá tem aquele salão também, né? E tem aquelas varandinhas. Vocês tinham acesso às varandas que tinha ali do lado?
R/1 — Da igreja? A gente quase não ia assim, sabe? Fomos... Quando menina, assim mocinha, a gente foi mais por curiosidade, pra dar uma olhadinha tudo, né? Lá na frente tinha uma estátua enorme de... Acho que bem... Acho que um metro e pouco, né? Acho que tinha um metro e meio de bronze mesmo. Que era o São Francisco de Assis, né? Que ali é Santa Clara de Assis, né? A igreja. Porque é de Santa Clara, que era a padroeira do Sêo Thomaz, né? Que ele gostava. E o São Francisco. E era a imagem de São Francisco e o cachorro. Mas era de bronze. Tinha um sino também, um sino. Aí tocava aquele sino. Dá pra escutar aqui embaixo, né? Tocar o sino. Então era... Às vezes a gente ficava olhando. Aquela pilastra assim. Quando ele subia lá em cima da igreja. Aquele telhado da igreja. Pra puxar a corda. Aquela pilastra fazia assim, ó. Ali, nossa. Balançando aquela pilastra. Eu não sei se era bem feito, mal feito. Ou era a prova de sino. Não sei. Eu sei que quando ele puxava a corda pro sino assim. Eu acho que se ele puxava com muita força. O coisa fazia assim. Aquele pedestal que tá até hoje lá. Aí, nossa. Mas era muito bonito. Muito bonito. Muita gente que ia lá. Era um...
P/1 — E é bom também porque tá durando até hoje. Tem gente que tá indo pra lá e ainda não caiu.
R/1 — Então. Assim, agora os vidros. Os bancos. Foi deteriorando. Eu não sei se tiraram. Levaram pra outro lugar. Eu sei...
P/1 — Sempre teve aquele muro ali? Ou não tinha nada?
R/1 — Era uma grade. Gradinha de ferro. Até aparece nas fotos. Era um portãozinho aberto. Grade de ferro mesmo.
P/1 — E no cinema também a mesma coisa?
R/1 — No cinema era tudo aberto. A escadaria era tudo aberto.
P/1 — O terreno do lado também era aberto?
R/1 — Era aberto. Aquele corredor era aberto. Ah, nós fomos também dia 7 de setembro nós fomos não tinha como é que fala? Desfile? Ali na... Embaixo do Viaduto do Chá ali. Não sei como é que chama aquela...
P/1 — É o Vale do Anhangabaú.
R/1 — Nós fomos lá. A banda foi... Ganhamos em quarto lugar. Tinha competição. Tinha outras bandas também. E a gente ganhou em quarto lugar. Aí ganhamos. Foi um busto do... Meu Deus do céu. Tem um cinema com o nome dele. Não estou lembrada. Sei que era de música. Era um maestro. Era um maestro de música. E foi ganhado um busto de bronze também. E ficou lá. Mas depois que foi se acabando, tiraram e guardaram, não sei onde que tá. Também foi... A gente ofertou também uma batuta. Uma batuta de prata pro... Também é que ele é um maestro, não sei o que Salgado. Eu não me lembro bem o nome dele. Eu sei que era salgado. Foi uma batuta de prata. Também foi ofertada pra ele. Foi também uma época que foi a banda que até o Chico Buarque era pra vir aqui. Porque a gente... Porque a gente tocava muito a música dele. A banda, né? Aquela música... Como é que chama? P/1 — Estava à toa na vida... R/1 — Isso. "O meu amor me chamou". Então a gente tocava muito essa música. E ele foi convidado pra vir. Ou ele se ofereceu pra vir. Não me lembro bem. E nós ficamos na espera. Mas acho que ele teve outro compromisso e não veio. Mas também teve esse episódio da banda, né? Da música da banda, né?
P/1 — E vocês se apresentavam bastante no cinema?
R/1 — Ah, todo mês. Primeiro domingo do mês.
P/1 — Ah, então não era na igreja. Não, não.
R/1 — Era no cinema.
P/1 — Só saíam da missa e iam para...
R/1 — Isso, era no cinema. Porque o cinema já tava pronto. A gente se apresentava lá. Depois que terminava aí a turma toda ia pra missa. Seis horas ia pra missa. E ali começava quatro horas. O evento, né? O show. Então começava quatro horas. Aí, nossa, tinha muita gente. Era gente assim na porta, nos bancos, lá em cima, dos lados. Era muita gente.
P/1 — Você lembra a primeira vez que você se apresentou?
R/1 — Bom, a primeira vez que a gente se apresentou mesmo assim foi mais na rua. Foi na rua. Depois que ficou pronto mesmo aí a gente foi lá pra dentro.
P/1 — E o cinema ali não ficou pronto junto com a igreja?
R/1 — Não. A igreja veio antes. Depois que veio o cinema. A igreja veio primeiro. Mas a igreja já tinha missa, a turma ia, tudo. Mas depois, quando começou assim o show, as retretas, aí veio mais gente ainda. Tanto que a igreja também ficava bem cheia. Bem lotada a gente ali. Nas escadarias, tudo. Bastante gente.
P/1 — Quando inaugurou o cinema, teve alguma festa de abertura, alguma coisa do tipo?
R/1 — Não. Não teve, não. Só teve os convites das pessoas pra participar.
P/1 — E era apresentação de filme geralmente que tinha?
R/1 — Sim. Tinha. Tinha o cinema de domingo, né? De domingo tinha cinema. Então as pessoas iam pra assistir o cinema. Mas não era pago, não. Era só pra lazer mesmo.
P/1 — Ah, não era pago?
R/1 — Não. Ninguém pagava, não. Não entrava.
P/1 — Como que era lá dentro?
R/1 — Ah, era bonito. Bem aos bancos. Bastante banco. Em cima também tinha bastante banco. Era muito bonito. Bem no palco, bonito. Uma cortina bem grande ali. Bonito também. Quando terminava o nosso show, a cortina fechava. Ligava o negócio lá em cima. E a cortina fechava. Foi muito bonito. Bem organizado, sabe? Foi um evento muito bonito. A pena que não tem mais isso hoje, né? E a gente vê as coisas se perdendo assim. Até o tempo o rapaz veio e falou: "porque a gente ia fazer e ia acontecer não sei o que, né?". Assim, dizer de melhoria. De fazer, assim, como é que fala? Uma escola. Profissionalizante. Mas até ali, na escolinha ali mesmo, foi dito isso. Até eu dei umas, assim, não bem falar, mas umas ideias, tudo. Como era o cinema, que podia ser feito agora, né? Aproveitar aquele prédio, né? Porque é um prédio bom. É só uma questão de reforma, fazer uma escola profissionalizante, fazer um sei lá, alguma coisa. Também não deu em nada, nunca ninguém mais falou nada.
P/1 — Faz muito tempo?
R/1 — Ah, faz tempo. Faz tempo. Que a gente foi lá até eu falei na escola, aí ela ficou de vir pra saber mais detalhes, tudo, né? Mas também não procurou mais e... E telefone, também não, acho que não deu em nada.
P/1 — E essa foi a única vez que tentaram revitalizar a escola.
R/1 — Isso, é. É. Agora, se tem outras pessoas interessadas em mexer, em reformar, ou fazer alguma coisa, eu não tô sabendo.
P/1 — A prefeitura, hoje, ela tem um incentivo. Ela quer transformar tanto a igreja quanto o cinema num espaço que possa trazer uma economia criativa... R/1 — ... Cultural, né? P/1 — Então, que seja algo que pras crianças possa ser um espaço cultural, mas que também possa desenvolver você tem uma lojinha, você vem de doce, vem salgado, tem um espaço ali pra você conseguir também ajudar a desenvolver o lugar. Eu acho que é bacana, né? Pra conseguir retornar o que a gente já fez.
R/1 — É, eu acho também que podia aproveitar, porque é uma estrutura boa, é uma estrutura firme ali. E... Deteriorando.
P/1 — E aqui a gente não tem nada cultural pra...
R/1 — Não tem, não tem. Você vê, a prefeitura mesmo, devia ver como é que que pé tá, se tá em cocordata, se pode, se não pode, o que pode ser feito, né? Aproveitar o espaço. Mas os políticos querem só fazer coisa nova, né?
P/1 — E acaba sendo complicado, né?
R/1 — É, complicado, porque podia aproveitar, né? Porque dá dó, a gente ver deteriorando uma estrutura daquela boa.
P/1 — Mas voltando assim, como que era aquele espaço, lá tinham os eventos, né? Além da banda, e além dos filmes que passavam, quais os mais eventos que tinham ali?
P/2 — Tinha lanchonete?
R/1 — Tinha, tinha lanchonete. Tinha. A gente no intervalo da banda, a gente ia lá na lanchonete, tomar um cafezinho, comer um biscoitinho.
P/1 — Onde ficava a lanchonete?
R/1 — Do lado. Tem as duas portas, né? Tem as duas portas. Do lado tem um vitrosão enorme, que já
P/1 — Do lado da escada, né?
R/1 — É, do lado de cá também. Um vitro enorme, ali também que já era quebraram o vidro, já arrancaram tudo. Ali era a lanchonete. E depois tinha as escadas que subiam lá em cima.
P/1 — Lá em cima tinha o que?
R/1 — Lá em cima tinha o lugar onde que eles colocavam os filmes, né? Aqueles maquinários lá, projetor, né? Pra passar os filmes. E tinha as bancadas ali, os bancos, tudo ali. E tinha pra cá, afastado, tinha o lugarzinho próprio pra eles pôr o projetor que passava o filme lá. Ah, legal. Então, passava os filmes, as pessoas... Enchia de gente lá, mas não tinha ingresso. Não tinha, era só chegando e sentando. Chegando e sentando e não tinha ingresso, não.
P/1 — Que tipo de filme passava lá?
R/1 — Era mais de aventura. De... Assim, de coisa, como é que é? Documentário, essas coisas assim.
P/1 — Lembra dos nomes?
R/1 — Ah, não lembro. Ah, não lembro. Sei que era documentário de fazendas, de cavalo, mas de... Nome, assim, de uma história que começava e terminava assim, não. Era mais, era documentário. Era bonito também, era bonito porque aparecia lugares, né?
P/1 — Conhecer novas histórias.
R/1 — É, é.
P/1 — E lá foi acabando quando? Acabou quando a pedreira foi embora?
R/1 — É, acabou quando começou... A banda já foi terminando. Houve esse negócio da concordata aí, que era obrigada, acho que... Parar com tudo. Parar a indústria também, foi mandado embora todo mundo. Quem tinha, quem... né? Então, foi mandando embora. A indústria foi ficando aos poucos lá. Cafézal também. Também foi já terminando. Quer dizer, então, acho que já era o limite mesmo que era para desocupar tudo, porque entrou em concordata. Então, já não podia mais funcionar nada, né? Nem pedreira, nem igreja, nem cinema, nada. Aí foi acabando mesmo.
P/1 — Acabou aos pouquinhos?
R/1 — É, acabando aos pouquinhos.
P/1 — Acabou, é uma saudade, né?
R/1 — Porque foi um momento bom. Foi um momento bom, uma juventude boa. Aí quando tinha viagem: "ai, tal dia nós íamos para viagem, aquela festa", sabe? Põe tudo dentro do ônibus, era instrumento, coisa, tudo dentro do ônibus. Era assim, gostoso, né? Era uma viagem boa.
P/1 — Eram quantas pessoas na banda?
R/1 — Ai... Tinha umas cinquenta pessoas, sei lá, mais ou menos. É, acho que mais ou menos, umas cinquenta ou mais.
P/1 — E era metade homem?
R/1 — Metade mulher. Mas tinha mais homem do que mulher, né? Então...
P/1 — E era só banda ou tinha canto também?
R/1 — Não, só banda mesmo, só banda. Só banda.
P/1 — Foi iniciativa de quem?
R/1 — Da banda? Do Sêo Thomaz mesmo, né? É ele mesmo que tinha esse sonho de fazer uma banda mista, né? Então, ele conseguiu, né? Até onde deu, né? Deu certo. Então, deu certo, deu certo. Só acabou mesmo por causa desse problema mesmo, acho que de... de organização deles, né? Como é que fala? Da pessoa saber conduzir, né? Conduzir a firma, conduzir a pedreira. Então, acho que foi por parte deles mesmo que tive... Foi ter que acabar, né? Porque a banda já foi diminuindo mais as mulheres, né? Ficou mais os homens só. Aí, depois desses problemas, tudo aí foi acabando. Acho que aí já não tinha mais banda, não tinha firma. A fábrica já foi acabando. Mas foi, assim, um momento muito bom. Uma juventude boa, sabe? Muito bom.
P/1 — Hoje, assim, se você pudesse revitalizar esse espaço, o que você faria?
R/1 — Ah, acho que eu voltaria tudo de novo.
P/1 — Deixaria do jeitinho que era.
R/1 — Ah, do jeitinho que era. A igreja bonita, o cinema... Se bem que esse, hoje em dia, fazer o cinema bonito, assim, tem os perversos, né? Tem os perversos que não podem ver coisas boas, coisas bonitas, que já quer destruir. Pixar essas coisas todas, né? Não sei se eu conseguiria, né? Mesmo que eu quisesse fazer tudo de novo, bonito e ser como era antes, não sei se hoje em dia daria. Porque, ah, vem um, joga lixo, vem outro, pixa, vem... Você vê ali em cima o quanto de lixo? Poxa! A pessoa não tem educação, não tem... É difícil você voltar a uma coisa assim. Hoje em dia mesmo, onde... Freguesia do Ó, essas coisas... Tem pixação, tem lataria pro chão, tem... Você vê, é um lugar mais no centro, praticamente mais no centro. Agora, se você for fazer uma coisa aqui, como? Com essa molecada aí que só quer destruir.
P/1 — Ah, as pessoas já não são mais as mesmas, né?
R/1 — É, então. Aí, depois que desmancharam o grupo escolar em cima, aí foi feito aqui. Aí ficou com o Clodomiro Carneiro, mas aqui. Bem grande, né? Bem grande. Porque lá era pequenininho. Lá era duas salas só. Duas salas. Então era pequeno, muito pequeno. Eram as duas salas e tinha um galpão no fundo. Um galpão, assim, onde as crianças ficavam na hora do recreio, né? Mas era só duas salas. Então era pequeno. Aí foi feito aqui. Agora aqui, eu não sei como é que foi feito. Porque é prefeitura, né? Prefeitura. Só que ficou o mesmo nome, mas bem maior, né? Bem maior. Aqui é grande. Aqui tem bastante salas, né? Tem o pátio grande também. Então já bem grande aqui. Lá era muito pequenininho. Era só para aquela pinguinha de gente que morava aqui, né? Então, enquanto deu. Depois, acho que foi obrigado a fazer um lugar maior, né? Então.
P/1 — Aqui também quando foi chegar, tinha pouquinha gente.
R/1 — Ah, tinha pouquinha gente.
P/1 — Como foi chegando mais, tinha que atender todo mundo.
R/1 — Então. Até o patrono mesmo, ele morreu de acidente de avião. No momento, assim, eu não estou lembrando o nome dele. Eu não sei se era alguma coisa. Não sei se era o Clodomiro Carneiro, não sei do quê. E esse nome ficou como o título da escola, né? Eu sei que eu me lembro na época ele morreu de acidente de avião. Não sei se o avião caiu no mar, uma coisa assim. A gente era criança na época, a gente ficou sabendo isso aí, mas não tenho bem certeza, né? Mas foi isso aí. Eu lembro que era, acho que era o nome dele mesmo, que ficou como Clodomiro Carneiro e aqui também, né?
P/1 — E está até hoje.
R/1 — E está até hoje. Mas ele morreu de acidente de avião, acho que caiu no mar o avião. Então, você quer fazer mais perguntas?
P/1 — Eu acho que agora a gente pode finalizar. Tem algum recado? Queira dar? Para as próximas pessoas que vão perguntar esse espaço. Eu sei que demoliram lá. Então, alguém vai perguntar. O que você falaria para as pessoas que vão perguntar?
R/1 — Assim, o espaço lá em cima? Então, o que eu gostaria era que as pessoas que, vamos supor, que tivessem o poder, sabe? Para fazer alguma coisa, uma benfeitoria lá em cima, para aproveitar esse espaço para essa molecada, um curso profissionalizante, uma escola de balé, de, sabe, culinária, e aproveitasse esse espaço. Porque está tão abandonado. Vai ficar até quando isso aí? Eu sei que nossos governantes poderiam ver esses espaços para fazer alguma coisa. Não querer construir coisa nova. Construir coisa nova. Aproveita esses lugares, né? O que a gente desejaria tanto para os que vêm agora, para esses meninos que vêm agora, das escolas, das escolas daqui, tudo, que tivesse algum lazer, alguma coisa, né? Coisa boa para eles. Uma coisa boa. E não deixar acabar desse jeito. Se eu fosse alguma coisa, um deputado, um vereador, eu ia fuçar lá. Vamos, gente, vamos fazer alguma coisa, vamos. Lá está abandonado, vamos empreender alguma coisa lá, vamos. Mas a gente sozinho, uma formiguinha, o que essa formiguinha vai fazer? Nem entra lá. "Você nem entra aqui. O que você quer aqui, véia? Vai fazer o que aqui, véia? Fazer tricô, vai?". Não é mesmo? Então a gente, num momento assim, não adianta mexer com nada. Deixa para os mais novos fazerem. Você, por exemplo. Façam um documentário bom aí, espero que você seja bem recebido por esse documentário. Espero que tenha contribuído para que ajude, né? Para fazer algum documentário, alguma coisa que alguém vê. E ajuda, né? E faça.
P/1 — Conseguir enxergar o que tem.
R/1 — Conseguir enxergar. Porque aqui, do jeito que era, nós estamos... Porque nem eu falo para ela. Eu aqui, no mato, escutava bicho cantar de noite, os cavalos correr de noite, que diz que é o saci, né? Os cavalos da olaria, corria, corria, corria. E a minha mãe falava, é o saci, que estava atormentando os cavalos. E no outro dia, os rabos do cavalo estavam dado nó, assim. Nós olhávamos para os rabos do cavalo, tudo dado nó. Diz que o saci que dava nó nos rabos. Olha aí. Eu não sei se é verdade ou não. Se era lenda. É, não sei. Sei que os rabos do cavalo estavam dado nó. Dava nó nos rabos. O cavalo não ia dar nó no rabo dele sozinho. Alguém deu. Quem? De noite? Eles trabalhavam na olaria? Então, eu não sei. Sei lá, lenda. Então, você vê. E hoje em dia, graças a Deus, se precisa de uma farmácia, está perto. Precisa de uma padaria, tem pão ali. A perua... Olha, eu escrevia tanta carta aí, pro Eli Corrêa. Quando ele vinha ali, das peruas. Nós não tinha condução aqui. A condução parava ali em cima. Tinha que vir a pé de lá de cima até aqui embaixo. Ou descer lá embaixo. Lá na avenida. E vinha a pé até aqui. Aí foi pedido isso e aquilo. Escrevi uma carta, falei, dei pra ele e tudo. Que as peruas, antes das peruas descer direto, elas fizessem isso. Ah, que nada. Não foi, nem fez, nem fiz. Foi só aquele voto, né? Voto que isso, né? Coisa na parede aqui. Queria pôr, deixei pôr. Que nada. Aí passou, passou, passou, passou. Depois é que tiraram a linha. Tinha uma linha de ônibus aqui. Acho que era Correio, né? Passava aqui. Tiraram a linha do Correio. E puseram as peruas. Aí as peruas faz isso, vai até na Iório. Faz isso, vai até ali na Portela. Depois que pega o ônibus e vai embora pra Lapa. Mas as vilas só ficou nas peruas. Aí sim, aí as peruas passam aqui. Então eu falava, olha, na época, carregava tanta sacola pesada com doce, que eu ia lá na Lapa buscar doce, sacola pesada, descia lá em cima e vinha com sacola pesada, porque não tinha condução aqui embaixo. Agora passa o Ana Rosa sete horas.
P/1 — Ah, o primeiro, né?
R/1 — É. Só passa de manhã, acho que sete horas, sete e meia, depois não passa mais. O Ana Rosa.
P/1 — Eu já cheguei a pegar ele.
R/1 — É. Mas o ônibus, o Correio, não tem mais. É perua mesmo. Você vai até a Iório, pega o Lapa e vai embora pra Lapa. E o Barra Funda é na Portela. Você vai até lá na Portela e pega o ônibus que vai pra Barra Funda. Mas é tudo perua que carrega até lá.
P/1 — Agora [inaudível].
R/1 — Então, hoje em dia, graças a Deus, aqui também foi uma luta pra levar, construir. Nós morávamos, depois que eu casei, a casa ficou grande lá, né? Eu morava nos fundos. Casei, morei nos fundos, Isso, quarto de cozinha. Depois, eu fui morar na casa lá da frente, porque meu pai faleceu, a casa ficou grande, repartiram, fiquei morando lá. E as enchentes? Bom, desde criança, a gente já foi criado na enchente mesmo, porque a casa, meu pai fez alto, mas não sei o que aconteceu com o asfalto e tudo, a casa ficou baixo. Enchia d'água. Ah, meu Deus. A última vez que eu saí daí também, nossa, foi tudo. Foi geladeira, fogão, tudo. Falei, misericórdia, meu Deus do céu, que vida. Aí, como tinha esse terreno aqui, que era praticamente o que meu pai plantava, as couve-flor, tudo. Aí foi quando meu marido tinha um barzinho, ele vendeu o barzinho, com o dinheiro a gente começou a construir aqui também, quarto de cozinha, banheiro. Eu trabalhava também lá no bairro do Limão, fiz empréstimo, vendi aliança para construir, para cobrir. Entramos assim. O chão, só parede e janela. Depois que eu mandei o rapaz ali colocar vidro e pagar prestação para ele, porque é um vento danado, tem que pôr vidro na janela. Mas era aquela luta assim, uma enxurrada de... As casas aqui, tudo era... Aí foi uma luta ali, foi um dia que foi a gota d'água. Os homens se enfezaram todos, meteram a marreta no asfalto, fizeram um buraco de fora a fora. Aí veio polícia, DSV, aí as mulheres também: "não vamos sair daqui, não vamos sair, vamos apoiar os maridos que estão fazendo buraco". Ficamos tudo ali, e veio polícia, tudo. Aí se mexeram, começaram a fazer galeria. Tem até as fotos da galeria aí. Foi feito galeria. Boca de lobo, aí foi posta uma aqui, a outra lá. Falei: "não, pode pôr outra aqui, pode pôr outra boca de lobo, de três ainda, porque é muita". "Não, senhora, aqui... Aqui não precisa de tanta". "Precisa, moço, põe aqui". Aí pôs. Pôs três boca ali, mais três boca pra lá, lá na esquina, e aqui na frente. E mesmo assim, quando chove fora, ainda... 15 minutos, mas é aquela enxurradona. É uma enxurradona, mesmo assim. Aí veio, porque aqui é um funil. Vem daqui, vem de lá, vem daqui. Aí puseram aquela grade lá embaixo, tem uma grade de ferro bem grandona também, porque aquela grade eu achei, não era nem pra pôr ali, aquela grade era pra pôr lá. Porque aqui vem pouca água daqui de cima. E aqui vem de lá, daqui, de lá, é muita água que desce pra cá. Então, mas, engenheiro é engenheiro, né? Engenheiro põe lá. "Aí, porque a água vem aqui e ela cai lá dentro". Mas antes de ela cair lá dentro, ela vai tudo pras casas primeiro. Essas casas aqui na frente, nossa. Tinha comporta, tinha comporta. Depois que puseram a galeria, aí achou melhor tirar. Mas mesmo assim, a Lúcia falou que tem medo. A Lúcia...
R/2 — Quando chove, tinha que educar, mãe. Hoje é hoje. É.
R/1 — Vem assim, ainda pus uma chapa no portão ali, pra ajudar, mas... É, já fiz, aterrei. Aí eu pus muita terra aqui. Muita terra. Terra lá da Freguesia do Ó. Tava trabalhando, vinha 14h, tinha um barranco lá, que tavam tirando lá. Falei: "ô moço, onde é que o senhor vai levar essa terra aí?" "Ah, vou levar pra um lugar lá que o homem..." Falei: "mas o senhor cobra pra...". "Não!" Falei: "aí eu tô precisando de terra, o senhor não quer levar no meu terreno?". Lá na Freguesia. Trepei no caminhão, caminhão todo cheio, vermelho de terra. Trepei no caminhão lá e vim trazer as terras aqui. Aí joga aquele caminhão cheio de terra, acho que uns dois caminhões. Justo naquele dia choveu. Misericórdia. Aí foi aquele barro pra dentro. Eita, virou um pasticho. Mas tudo bem. Foi pondo, foi pondo terra, foi pondo, ficou na altura que tá. Que era mais baixo ainda. Então, foi uma luta, menino.
P/1 — E aos poucos foi conseguindo, né?
R/1 — Foi, a gente foi conseguindo. Hoje, graças a Deus, a gente... Construí também, trabalhei pra cá, trabalhei pra lá, trabalhei pra cá, aí... Fui mandada embora também, Plano Collor, né? A firma lá.
P/1 — A senhora trabalhava com que naquela época?
R/1 — Tecelagem também. Tecelagem, lá no Bairro do Limão. Aí foi aquela... Um monte de gente mandada embora, sabe? Era só a gente, bolsinha, sacolinha, esvaziando o armário. Que foi o Plano Collor, foi triste, né? Então, a gente... Aí eu falei: "meu Deus, o que que eu faço agora?". Aí fui trabalhar pra cá, fui trabalhar no OSEM. OSEM também era triste, também. Aquele bando de criança. Você tinha que... Era... 40 canequinhas, 40 pratos, 40 garfos, 40 facas, pra lavar as panelas, tudinho, que eu era ajudante de cozinha, né? Tinha cozinheira, tinha a ajudante, que era eu. Aí descascava, descascava, aquele monte... Mandioca, era caixão de mandioca. Era fruta, tinha que descascar as frutas todinha, deixar limpinho. Era de cedo ou de noite. De sete até quatro da tarde, que quatro da tarde tinha janta. Tinha o café da manhã, o almoço, o lanche da tarde e a janta. Aí aquela... Ah, fiquei tão cansada. Aí eu fiquei acho que uns quatro anos ali. "Ah, eu acho que eu não... Quero sair, eu vou fazer outra coisa". Aí eu pedi, falei com a moça lá, fazer um acordo lá com o dinheiro pra construir aqui. Falei: "Vou fazer um salão ali, vou vender doce, bala, sei lá o quê". Mas... Entrei pra dentro também, só com piso e azulejo, porque precisava, né? Porque é comércio, né? Mas tudo com coisa assim, reciclado, né? Porta, porta de ferro, no ferro velho lá embaixo. Coisa pra pôr doce, vitrine. Tudo reciclado, achava por aí, aí pintava e pronto. Aí foi aí, fiquei, fiquei, fiquei, era vender sorvete, comecei com nada também, né? Aí isso aqui, salgadinho, sorvete, isso e aquilo. Sei que graças a Deus, na época, eu pagava o INSS, mas eu pagava autônomo, né? Porque eu tinha os registros das firmas, mas eu queria continuar. Aí eu pagava autônomo, e fui assim, sabe? Vendendo isso, aquilo, até chegar o tempo de aposentar, né? E meu marido também não era aposentado, então ele tinha que fazer os bico dele pra gente sobreviver, né?
P/1 — Ele trabalhava com quem?
R/1 — Ele trabalhava na Santa Marina. Mas depois na Santa Marina também houve uns problemas lá, e aí ele foi mandado embora. Aí ele foi trabalhar de táxis, e eu sei que foi assim a nossa vida, assim, depois, até ele se aposentar. E eu também, chegou a minha época de aposentar, 60 anos, né? Dei entrada, eu falei: "ah, ele não vai pagar mais nada não, eu não sei nem se eu vou viver até, até completar", porque ainda faltava, acho que completava 18 anos pra ele pagar ainda, e ainda faltava pra mim aposentar por tempo de serviço. Então, "aí eu não vou pagar mais nada. Eu vou aposentar por idade mesmo, não sei nem se eu vou viver até lá". Aí eu aposentei por idade. Eu paguei 17 anos de INSS, né? Paguei... Era 15, mas eu paguei a mais, né? Paguei 17 anos. Aí, aposentei, e fiquei, continuei trabalhando ainda, isso, aquilo, trabalhando. Depois que eu achei um jeito de vender, eu falei: "Ah, chega, já tô cansada". Aí vendi. Vendi, a pessoa ficou, depois ela quis ir embora, porque ela queria ir num outro ponto bão, eu falei: "Menino, não vai embora, fica aqui". "Não, porque o ponto é bão, porque não sei que". Aí catou tudo, as coisas dele, e foi embora, porque eu já tinha vendido pra ele com tudo, né? Geladeira, tudo. Catou as coisas, foi embora. Aí ficou lá uns meses, aí não deu certo lá. Tava ruim, tava cheio de maloqueiro lá, não deu certo. Aí, antes que ele tava lá, eu falava: "não sei nem o que me chama já, sabe?". Montei tudo de novo, comecei tudo de novo. Comprei a geladeira, comprei as coisa, comecei tudo de novo. Já fiquei mais um tempo ali. Passou mais um tempo, "ó o homem de volta". Ai, porque, comprou de novo? Comprou de novo. Comprou tudo de novo. A geladeira, as coisas, tudo que eu tinha comprado, eu vendi pra ele com tudo dentro. Ficou mais um tempo. Aí, a mulher dele ficou doente. Aí, a mulher dele não vinha, porque a mulher dela, acho que tava com depressão, não sei o que tinha acontecido. Foi embora. Aí, foi embora, ficou o salão vazio, porque ele tinha comprado tudo, ficou o salão vazio, aí comecei a alugar. Aí aluguei, nem sei pra quem. Cabelereiro. A menina do esmalte, lá, eu sei que aluguei. Depois que achei, "ah, não vou alugar mais não", começaram a me dar furos, sabe? Demorava pra pagar, era um sufoco, água e luz. "Aí, não vou alugar mais nada". Aí, foi que ela achou o jeito de querer fazer pra ela, né?
P/1 — Então.
R/1 — Aí, fica aí, né? Faz aí, usa o salão, né? Faz o que tem que fazer. Um espaço bom, todo mundo conhece. É bem fechadinho ali, tudo, né? Mesmo que você tá com a porta aberta, mas tem a grade, né? Já é um lugar bom, né? Muita gente veio pra querer alugar tudo, mas aí eu falei, não, não alugar mais não. Não tem dor de cabeça, não. Você aborrece, tem gente boa, mas tem gente também que abusa, sabe? Parece que é meio complicado, né? Hoje em dia. Pra alugar. Quer fazer mais alguma pergunta? Alguma coisa que ficou a dever?
P/1 — Tá gravadinho aqui.
R/1 — Tá gravado?
P/1 — Ficou quanto tempo?
R/2 —Não sei. Então, agora pra você ver, a câmera desligou em meia hora.
R/1 — Epa! Quer dizer... Poxa vida!
P/1 — Mas pelo menos a gente tem o áudio.
R/1 — Ah, que pena.