Núcleo Memórias do Morro Grande
Realização: Coletivo Memórias do Morro Grande
Entrevista de: Ricardo do Santos Queiroz
Entrevistado por: Vitor Stalmann
Presentes no dia: Vitor Stalmann e Lucas Oliveira
Local/Data da Entrevista: São Paulo, 16 de agosto de 2025
Código: MMG_HV008
Transcrito por: Vitor Stalmann
Data da Transcrição: 27 de outubro de 2025
P – Bom, então vamos começar aqui. Para começar, eu quero que você fale o seu nome completo, sua data de nascimento e o local que você nasceu.
R – Meu nome é Ricardo do Santos Queiroz. Eu nasci dia 22 de julho de 1984, no Hospital da Freguesia do O. A primeira residência que eu morei, que eu me recordo, foi na Rua Manuel de Sousa Azevedo. No quintal do Seu Manuel, inclusive, português. Já não existe mais. O quintal era algumas moradias de aluguel que o português mantinha lá. Acho que tem dois sobrados lá no local hoje. E depois eu fui morar na Rua do Perdão. A Rua do Perdão é uma rua bem conhecida no Morro Grande pela união dos moradores. É uma rua pequena, então o pessoal se mobilizava bastante para fazer festa entre si. Decorávamos a rua para a Copa do Mundo, competimos entre as ruas mais decoradas da Copa, então era bem legal. Esse é o comecinho ali que eu me lembro.
P – E qual que é o nome dos seus pais?
R – Meu pai é José Cláudio Bezerra de Queiroz, cearense. Ele veio com o meu avô do Ceará. E minha mãe é Lenilde da Silva Santos. Meu avô acho que veio da Paraíba também para morar direto no Morro Grande.
P – E por que eles vieram para cá?
R – Acho que vieram para cá em busca de oportunidade, como a grande maioria das pessoas vinham antigamente. Era um lugar de ascensão e o pessoal vinha em busca de oportunidade mesmo, em busca de trabalho. Um dos meus avôs morava em uma rua e o outro na rua de cima. Então um morava na Miguel Gonçalves dos Reis e o outro na Manuel de Sousa Azevedo mesmo.
P – E me conta um pouquinho como que era o bairro na sua infância?
R – Eu estudei no condomínio Carneiro, quando eu já era no prédio atual. De quando eu me lembro da minha infância, eu morava na Rua do Perdão. No acesso que é a Rua Avenida Tomás Rabello e Silva era um córrego. Então nós chamávamos de Rua de Terra, Rua 1 e Rua 2. A Rua de Baixo, que levava até a Fuad Lutfalla. E a rua de cima, que levava para a fábrica de bloco. Então tinha uma fábrica de bloco onde os jovens trabalhavam ali no início da Rua do Perdão. E o córrego, que hoje é canalizado, que dava na Fuad Lutfalla. Então para ir no mercado, tinha que passar pelo córrego. Para pegar o ônibus tinha que passar pelo córrego ou subir para o Morro Grande. Então eu me lembro dos mercados que tinham antes, que era o Super Ó, que hoje é o Dia, lá em cima, onde é a farmácia, tinha o Tupã, que também era um mercado bem, tipo... Era o que a gente tinha para poder fazer as compras. Para nós era uma viagem ir no mercado. E quando criança a gente ia sozinho, né? Ainda podia andar sozinho, podia brincar sozinho, podia brincar na rua. Às vezes esquecia até de almoçar. Porque a gente ficava na rua, explorava, ia para o lado do córrego, ia para as ruas vizinhas. Coisa que hoje já não dá para deixar as crianças sozinhas na rua, né? Então isso aí é uma diferença que eu acho muito grande. Os filhos são criados dentro de casa. A grande maioria.
P – E que mais vocês brincavam lá no Morro Grande?
R – Do que mais a gente brincava? O mesmo. Brincávamos de futebol, brincávamos de pega-pega, salva-latinha. As brincadeiras eram essas... e pipa. Pipa é o que mais a gente brincava, porque tinha esse espaço do terreno do córrego. Então a gente passava o dia lá, explorando, enpinando pipa e jogando bola.
P – Me conta um pouquinho da sua adolescência ali no bairro. Como que foi? O que vocês faziam?
R – Não tinha muitas oportunidades para o adolescente. Não tinha o que a gente tem hoje com relação à qualificação profissional, à montagem de uma estrutura para você depois ser um adulto, né? Então o que a gente fazia era escola, se reunia nas praças, conversava, empinava pipa ainda, não tinha muito o que se fazer. Não só no Morro Grande, não tinha mesmo na região muita coisa. É diferente do que as crianças têm hoje. A gente tem curso, tem música, esporte, isso a gente não tinha antes.
P – E tinha muita gente morando no bairro naquela época?
R – Já tinha, já tinha bastante gente. A maioria das casas do Morro Grande são próprias, são poucos quintais de aluguel que tem ali. Então o pessoal que vinha do Nordeste já iam preenchendo para o lado da serra. Sempre o pessoal que vem, vem preenchendo para cima da serra, o que hoje está lá em Taipas. Então já era bem populoso. Acho que não o tanto de gente que mora hoje, né? Porque temos alguns prédios, mudou um pouco a estrutura, mas já era bem populoso.
P – Bom, então fala um pouquinho de trabalho. Qual foi o seu primeiro trabalho?
R – O meu primeiro trabalho foi num lava rápido. Trabalhei acho que com 16, 17 anos eu trabalhei nu lava rápido, ali na Vila Iório. Depois eu estudei, prestei concurso para a Polícia Militar. Trabalhei de temporário, que era um serviço administrativo dentro da Polícia, de 2005 até 2008. Depois eu trabalhei na educação, fui ATE, que ajuda na secretaria, ajuda a cuidar das crianças. Esse eu fiquei só um ano. Aí eu prestei concurso para a Polícia Militar de novo. Eu fiquei até 2021, quando eu tive alguns problemas e saí. Muitos problemas psicológicos na Polícia. Eu fiquei dois anos afastado e aí o médico disse que eu tinha que sair mesmo, não teve jeito. Aí eu saí de lá. Fui trabalhar... Hoje eu trabalho como corretor de imóveis, mas eu trabalho mais na política. Trabalho mais engajado e mais envolvido na política. Então, eu ainda era policial militar. Eu estava na Mooca um dia, eu tenho até um vídeo acho que nas minhas redes sociais que eu falo isso aí. Eu estava na Mooca um dia e eu vi um comerciante ligando na subprefeitura para resolver um problema. Eu já tinha o Portal do Morro Grande e a gente tentava sempre ajudar o bairro. Tentava sempre corrigir algumas falhas, ajudar a população em alguns problemas. O portal sempre foi captador de demanda quando o poder público deixava essa brecha. Então, mandava para a gente e a gente publicava e reclamava. E eu vi esse comerciante ligar na subprefeitura e a prefeitura vir na hora. D tempo que eu estava ali, acho que demorou dez minutos, a prefeitura veio e corrigiu o problema. Falei: "nossa, mas como é que faz isso aí? Eu estou lá, a gente reclama, bate, briga e ninguém arruma nada". "Aqui os comerciantes têm uma associação comercial, a gente se reúne com a subprefeitura, a gente leva as ideias lá e a gente é bem engajado politicamente". Falei: "vamos tentar!". Foi a primeira vez que eu me reuni com o subprefeito, com o Serginho, e ele abriu para a gente a oportunidade de estar se comunicando com a subprefeitura. Então, de lá para cá, só ladeira abaixo, trinta, quarenta pedidos por dia entrando no portal. Então, essa brecha que tinha, essa brecha que o poder público deixava, a gente conseguia preencher com a política. Foi aí que eu comecei a mexer com a política. Então, daí vieram algumas obras, uma vereadora se aproximou, viu que a gente estava se movimentando ali, se aproximou e se colocou à disposição para poder nos ajudar com esses problemas, oficiando, brigando e falando pela gente lá. Então, aí veio a primeira obra, a gente conseguiu um parquinho lá na Maria Nazaro da Silva, uma obra de 240 mil reais, um parquinho lindo, top, as crianças brincam até hoje. Colocamos o equipamento de ginástica para os idosos, aí começamos a asfaltar ruas, inclusive a primeira rua que eu morei, ela foi recapiada a primeira vez agora, foi uma obra de 2 milhões de reais.
Guias, sarjetas, tudo o que tinha de problema lá, placa de proibido estacionar, a gente conseguiu converter rua para vir a contramão. Então, isso tudo surgiu daquela conversa que eu tive com o comerciante lá na Mooca. Então, a gente se espelhou no que o pessoal da Mooca fazia e por que não a gente fazia no Morro Grande também. Então, foi aí que o portal virou um instrumento da população lá no Morro Grande. Hoje, no portal, a gente não só reclama, antes de colocar lá para reclamar, a gente vai atrás, estuda como resolve aquele problema e usa um pouquinho da força política que a gente conseguiu para poder resolver. A grande maioria das coisas são resolvidas por ali.
P – E qual que é o maior tipo de solicitação que o pessoal faz para você?
R – Como eu falei, nós não temos muitos problemas no Morro Grande, por incrível que pareça. Quem assiste aqueles jornais que apertam sai sangue lá de manhã, vai ver que esses lugares estão feios. Então, com relação à segurança pública, é pouquíssimo. Apesar de todo mundo querer uma base da polícia na rua da sua casa e todo mundo querer uma viatura parada na parte da sua casa, são pouquíssimos os problemas de segurança pública que a gente tem lá. Solicitação de barulho, são poucas também. Então, a maioria é zeladoria. A maioria das coisas são zeladorias. Eu acho que as pessoas nem sabem o que elas podem pedir, na verdade. Eu tenho uma tia que ela vai na farmácia popular, por exemplo, ela pega três, quatro ônibus para ir lá no centro. É na farmácia de alto custo. É longe pra caramba. É uma coisa que o bairro poderia estar brigando para trazer. Um hospital veterinário. A gente vai na Casa Verde levar os animais lá. Por que não no Morro Grande? Então, eu acho que as pessoas agora estão começando a nos enviar esse tipo de solicitação mais complexas. O alagamento que tem lá na Favela do Mangue, por muitos anos já tem, e é um problema tão fácil de resolver. O tubo de saída, o tubo que liga o encanamento, um tem dois metros e o que recepciona tem um. Então, ali alaga. É só isso. Talvez uma obra não tão complexa a gente consegue fazer lá. As pessoas começaram a pedir agora. Então, é mais zeladoria, mas as pessoas já estão aprendendo a fazer as solicitações que vão facilitar mais o dia a dia. Então, a gente coloca ponto de ônibus coberto, onde não tem. A gente ainda tapa buraco da rua, apesar das pessoas todas quererem que seja recapiada a rua. A gente ainda tapa o buraco. Algumas ruas já estão na fila para poderem ser recapiadas. A gente fez o prédio da ONG lá no Morro Grande, onde vão ter os cursos. Colocamos a primeira verba lá, que o vereador mandou. Vai vir a segunda verba, vai ser um lugar bem legal. Então, o meu sonho é colocar o Morro Grande no mapa, do jeito que ele deve ser. É que o Morro Grande seja reconhecido. Quando estiver falando com alguém de outro lugar, não precisa falar: "sabe ali na Ponte do Piqueri? Sabe na Lapa? Sabe não... Conhece o Morro Grande?" "Conheço". "É lá onde é o parque, é onde tem o pátio do metrô, é onde tem o hospital veterinário, a farmácia. Lá é o Morro Grande, é aquele lugar bem legal". E que as pessoas da comunidade em volta tirem como exemplo o que está sendo feito lá e não aceitem menos que isso. Então, o show que nós fizemos de aniversário do Morro Grande este ano, que a estrutura foi bem legal, com comidas boas, com palco legal, com a música boa, que ele sirva de base para o que as pessoas lá em cima também na Brasilândia aceitem. Então, olha, eu quero igual no Morro Grande, não aceito menos que isso. Eu acho que as pessoas têm que pensar dessa forma. A gente está tentando deixar o Morro Grande bem legal para ser uma referência para depois expandir para o restante da comunidade. A ideia é essa.
P – E no seu trabalho hoje, qual você acha que é a maior dificuldade que existe ali no território?
R – A maior dificuldade no território é justamente essa que eu acabei de falar para você. É as pessoas se unirem. Nós temos capacidade, uma capacidade política bem grande. Você vê na Zona Sul, tem três, quatro, cinco vereadores eleitos que são representantes da comunidade com uma quantidade de votos excelente. Isso faz diferença na hora de trazer recursos para a região. E a população lá do Morro Grande ainda não entende isso daí. Não só do Morro Grande, quanto da Brasilândia. A gente expandindo um pouquinho mais lá para cima. Teríamos condições de eleger dois, três vereadores muito bem votados ou representantes de qualquer outra parte da política para poder facilitar a conquista de outras coisas. Então a gente está tentando disciplinar as pessoas, conscientizar as pessoas também de que se a gente se unir, se a gente mostrar que somos um bloco, vai ser mais fácil de conquistar algumas coisas. Já é um lugar legal. Não é o ideal, mas já é um lugar legal de se viver. Pessoas que vêm de outros lugares já gostam, acham bem legal o bairro. Então, pensando daqui para frente, é a população se conscientizar que a gente tem que ser mais unido. E que o problema do Vitor, eu posso ajudar ele a resolver, posso me unir com o Vitor para resolver aquele problema. E quando for o meu problema, o Vitor vai se juntar a mim para poder brigar também. Por isso que você falou sobre a preservação do patrimônio histórico lá, é importante. Eu não entendo ainda, não compreendo, o quanto é importante. Mas, por cima, eu gostaria que a história fosse preservada. Não gostaria que as minhas tias vissem ser derrubado um patrimônio onde elas conviveram quando eram crianças. Eu não quero ver a escola que eu estudei, por exemplo, sendo derrubada. Então, eu acho que por respeito e até por justiça, eu acho que aquilo deve ser preservado sim. Então, eu não entendo, mas já estou do lado. Eu acho que é dessa forma que a população deveria reagir. Não a gente ir lá na internet e falar um monte, gritar e falar o que quer e não se movimentar. Então, a ideia é essa. A ideia é que as pessoas realmente se conscientizem, para poder a gente um ajudar o outro lá. Da parte do bairro lá para trás, não tem muita coisa. O adolescente realmente era fechado ali. Então, não tem muita coisa para a gente buscar. Talvez algumas outras pessoas que são mais velhas, elas vão poder falar melhor. Mas a gente, a grande maioria da minha adolescência, não vai ter muita recordação. Vivemos ali, jogamos bola e tal, mas era meio que um dia repetido atrás do outro. Agora, o que você quer falar daqui para frente?
P – O que você acha que mudou no bairro daquela época para hoje?
R – Sim, mudou. Eu acho que até natural de bairros paulistas, uma geração veio melhorando após a outra. Então, o que eu me recordo são quatro gerações, três, quatro gerações. Educação. As pessoas buscaram mais educação, buscaram mais qualificação e até investiram mais em pequenas empresas. Então, nós temos várias empresas no bairro hoje, não só grandes empresas como pequenas empresas, pessoas mais qualificadas. Então, eu acho que isso daí mudou. Eram pessoas que vieram, migraram de alguns outros estados, que formaram ali as suas famílias, mas hoje os netos já estão todos melhores de vida. Então, eu acho que isso daí foi o que mudou bastante. E a gente já tem muita coisa fácil para a gente, mais próximo. A gente tem várias linhas de ônibus que te levam para qualquer lugar. Temos o metrô que está chegando agora também, que é uma bela de uma conquista. Farmácia, posto de saúde, funciona. Um Hospital da Brasilândia, que está ali do nosso lado. Então, a gente não precisa sair do Morro Grande para nada hoje. Acho que isso é uma coisa que mudou bastante. Até do que eu me lembro que meus avós falavam, que para poder ir trabalhar tinha que pegar um caminhão, ir até a ponte, atravessar a ponte lá, e ir trabalhar. Hoje, quem quer trabalhar fora do bairro, vai fácil. O transporte não é ruim. E também tem opções para trabalhar dentro do bairro. Então, acho que isso é uma das coisas que mudou.
P – Bom, hoje a gente sabe que o aniversário do Morro Grande é o que une as pessoas, é uma das coisas que unem. Antes, o que unia o bairro?
R – Antes, nós tínhamos quermesses. Na Rua do Perdão, já estivemos na Rua Xavier da Silva Ferrão, nós tínhamos quermesses. Tem dois irmãos gêmeos, Crispim e Crispiniano. Os gêmeos gostavam muito dessa parte de DJ. Tinha uma rádio lá no Morro Grande, que eles participavam também. Então, eles bolavam essas quermesses, que eram festas juninas, mas com um som bem potente. Fechavam as ruas e o que reunia mesmo era a parte das quermesses. Não tínhamos outras festas durante o ano. Então, organizávamos essas quermesses e todo o bairro ia para as quermesses.
P – E tinha muito time de futebol?
R – O que eu me recordo, e ainda temos hoje, é o Unidos do Morro Grande. O Moitta, que era da Vila Progresso ali. Vila Progresso, a gente também junta, anexamos a Vila Progresso ao Morro Grande. Então, o Unidos do Morro Grande e o Moitta são dois times que são bem antigos, lá pelos anos 70. Então, foram times que meus tios, meu pai, jogavam na várzea.
P – Onde que eles jogavam?
R – No Fazendinha. Fazendinha... Desculpa. Fazendinha... deixa eu lembrar o nome. O Complexo Mishisa Murata. Aquela parte onde hoje é o Hospital da Brasilândia, a gente tinha um campo em cima e o campo que sobrou hoje lá embaixo. Eu não lembro o nome do parque, acho que é Oswaldo Brandão. Oswaldo Brandão hoje, o nome do clube. Mas o Fazendinha era o campo onde os times da região recebiam os jogos. E no Parque da Área Verde também.
P – Ah, na Área Verde também?
R – A Área Verde é uma luta nossa também. Inclusive, o secretário do Verde e Meio Ambiente vem pra gente conversar sobre o Parque do Morro Grande e a gente vai conversar com ele sobre a Área Verde também. Uma gestão que não está agradando muito, não está trabalhando muito lá, então a gente vai conversar com ele pra ver o que ele pode fazer pros times voltarem também a receber jogos lá. Então a gente está tentando, nesse retrabalho, de resgatar algumas coisas, inclusive dar um impulsionado nos times de várzea. Que é uma das coisas que trazem a história do bairro. Uma das coisas que levam a história do bairro. Tem um bar lá embaixo, do lado da Pizzaria La Morine, que é a sede do Unidos do Morro Grande, que é onde meu pai me levava todas as manhas. Tem fotos de todos eles lá, então a maioria dos moradores homens do bairro participavam do time. Então tem que ter um espaço legal, né?
P – E o seu pai, ele era bastante envolvido no bairro?
R – Meu pai, ele... Na verdade, o que eu faço hoje é muito do meu pai. Meu pai, ele ajudava a Cida na Associação do Morro Grande, e o Gilberto. Inclusive, o primeiro aniversário do Morro Grande quando a Cida fez, meu pai trouxe um trio elétrico, veio dirigindo um trio elétrico, não sei de onde que eles arrumaram um trio elétrico, colocavam os artistas em cima lá pra tocar. Meu pai usava o carro da prefeitura, que ficava com ele, ele trabalhava na prefeitura, usava o carro da prefeitura, que ficava em casa, pra puxar os carros alegóricos do Guaraú. Então ele levava os carros alegóricos com a picape da prefeitura, no meio da marginal, até o Anhembi, ou até onde fosse. Ajudou no Guaraú, ajudou... meu pai ajudou a fazer o samba do Rosas de Ouro, ele era envolvido com tudo o que tinha na população, foi candidato a vereador no Morro Grande também. Então o que sobrou um pouco do meu pai é o que eu faço hoje. Um pouco mais aperfeiçoado, como falei, a gente veio melhorando, hoje a gente estuda pra não falar besteira, estuda pra não passar vergonha quando for pedir as coisas, mas isso com certeza nasceu do meu pai.
P – Que legal. E... e também, além do aniversário do Morro Grande, a gente sabe que tem outros pontos que unem as pessoas ali no território. Quais pontos você acha que é hoje?
R – O Samba do Congo. O Samba do Congo é essencial. É um lugar… É um lugar que... que o bairro tem, que inclusive valoriza mais. Né? Nós tínhamos a sede do Unidos do Guaraú, que hoje é um CDC, CDM, não sei, é um clube lá em cima, mas o Bloco Guaraú unia bastante as pessoas. Hoje, um pouco menos, o pessoal tá trabalhando duro, mas... também eu acho que a gente deve fazer um resgate maior, intensificar um pouco mais pra não perder essa parte de cultura. Né? A própria quadra de futebol lá em cima do Cacalo, onde as crianças do bairro fazem a aula de futebol. Então, acho que são esses. Não temos muitas escolhas, né? Eu acho que com o parque agora, com o uso consciente, com o uso mais estratégico desse terreno que sobrou pro parque agora, a gente vai ter mais coisas. Então, não sei o que o pessoal pretende fazer lá com a parte do cinema, mas creio que dê pra fazer alguma coisa bem legal pra população. Aí, com a parte da igreja, também. Aquilo lá em cima, a gente pode construir mais alguma coisa também pra poder ter mais... pra poder ter mais pontos pra gente poder se reunir no bairro. A gente tem a ideia de impulsionar esses micro-influencers que a gente tem no bairro. Temos pessoas boas. Eu fui atrás esses dias, temos pessoas boas. Tem uma menina super famosa que faz maquiagem uma influencer bem legal que é a… é famosa, mas não é do meu nicho que é a Aline Moraes... Jéssica Moraes... Jéssica ou Aline, são irmãs, mas acho que o nome dela é Aline. Bem famosa no TikTok, bem famosa no YouTube. O Instagram dela é bem bombadinho também. Mas acho que falta alguma coisinha. Entendeu? E essa daí, assim como o Juarez, eles aprenderam sozinhos. Foram desenvolvendo técnicas, estudando um pouquinho ali, só um pouquinho aqui. Mas acho que dá pra fazer alguma coisa melhor. Os jornais também de bairro, que vieram substituindo as rádios comunitárias. A maioria das rádios comunitárias foram vendidas pra rádios evangélicas. E aí faltou a comunicação com a comunidade. Então o que faz no megafone lá na favela do Rio? O que a gente faz com o Portal. O Portal é um jornal comunitário. Tem várias teses de alunos da USP falando sobre esse jornalismo comunitário. Então é um meio de comunicação mais limpo, né? De dentro da população pra própria população, não tem interferência política, não tem interferência nenhuma. O que a gente coloca lá é o que tá acontecendo lá, visto e comunicado na grande maioria das vezes por moradores do bairro. Então o pessoal que manda: "ó, tá acontecendo alguma coisa aqui". "Eu acho bom avisar que tem gente passando nota falsa". E aí a gente usa o Portal. Mas precisa de um pouco mais. Então a gente pensou em trazer o pessoal de o pessoal das grandes emissoras mesmo, o pessoal que dá aula em faculdade, o pessoal pra ajudar esses jornais que a gente tem no bairro. Não interferir, mas ajudar a desenvolver um pouco mais. Então nós temos na Brasilândia o que? Acho que dá uns 300 mil moradores por aí, no complexo todo. O jornalzinho ali tem que ter no mínimo 100, 200 mil seguidores. E a gente, é difícil alavancar isso daí. Acho que falta um pouco, e aí a conexão de mídias periféricas vai ajudar. Vai ajudar o Mc, que o Instagram dele tá péssimo. Vai ajudar a menina que é tiktoker. A ideia é montar um estúdio desse aqui mesmo, montar um podcast legal pra alguém ir lá gravar, e alavancar esses jovens talentos aí. Ia ser lá no prédio, no prédio da ONG. A gente tá estudando ainda. Mas se vai ter alguma coisa lá do lado, a gente vai ajudar. Eu trabalho com um grupo, inclusive nós coordenamos esse grupo no último semestre, que investiu 20 milhões lá na região. A gente entende de obra um pouquinho. Inclusive obra da Prefeitura, licitação. Se existe uma verba destinada para o parque, você já vai usar pelo menos 15 milhões para fazer o campo de futebol americano. Por isso que eu bato muito na tebra de receber o projeto pronto. Isso aí veio, o anexo no projeto. Então a gente tem que realmente, tem que ser do jeito que a gente quiser. Se não tiver legal, não é porque saiu que a gente vai aceitar. Não, vai demorar mais. Tá bom, então demora mais. Mas tem que ser do jeito que a gente quer. E as pessoas têm que saber disso daí. A gente tem que se juntar, tem que fazer o máximo para que as pessoas saibam que a gente tem a capacidade de interferir sim. Que tem que ser do jeito que a gente quer.
P – Eu tenho uma dúvida, assim, que é a questão de, a gente está num, bem, você mesmo falou, a questão que a gente está num momento de muita transformação, né? Então, é de, pra um futuro, assim, pensando no que vai mudar. O que você acha que deve ser preservado e o que você acha que não precisa mais existir ali.
R – O que eu acho que deve ser preservado? Olha, eu não... é uma opinião particular. Sou ninguém pra poder falar o que deve ou não ser preservado. O cinema tem que estar lá. E eu acho que o cinema tem que estar lá do jeito que ele era. Ele tem que... as pessoas merecem, né? As pessoas que ainda vivem ali merecem ter essa… a preservação dessa memória. Então eu acho que o cinema tem que estar lá do jeito que ele era antes de ter pegado fogo. Antes de ter sido abandonado. A igreja eu já não sei. A igreja deve ser preservada e sim o prédio. Mas não voltar pra igreja católica como já foi cogitado. Bom, isso é uma opinião particular. A vila operária com certeza deve permanecer. A tecelagem da forma que era. Então tudo que... Tudo que agrade os mais antigos eu acho que deve ser preservado ali sim. É uma forma de respeito. A gente aprendeu muito a respeitar os mais antigos. Então acho que tudo que agrada a eles deve sim ser preservado. E pra mim, pro Ricardo… Com certeza o cinema e a igreja, eles devem ser preservados.
P – E fora esses espaços assim, tem mais alguma outra coisa assim do Morro Grande que você acha que deveria ser preservada também?
R – Agora, de memória assim... Acho que não. Não. Tem?
P – Eu não sei.
R – Tem mais alguma coisa?
P – Também não sei. Eu acho que é uma questão muito pessoal mesmo.
R – O Campo do Vega eu acho que deveria ser preservado. O Campo do Vega é um dos poucos locais que sim, que as pessoas tinham pra se divertir ali, que os jovens tinham pra poder jogar futebol e tal, se reunir. E sempre foi o campinho do Vega. É legal a gente ter o campo lá. Acho que já é um espaço que tem as traves, que é funcional ainda. Eu acho que deveria continuar sendo o campo ali. Acho que é isso aí.
P – E como que era a dinâmica do campo antigamente?
R – O pessoal se juntava, sol, chuva, do jeito que fosse, montava dois times e fazia o rachão. Não tinha falta, não tinha nada, só tinha o horário de quem entrava o próximo. Ali o filho chorava e a mãe não escutava. Mas a gente se divertia muito ali sim. Acho que algumas crianças, alguns adolescentes ainda jogavam há uns anos atrás. Agora ele foi desativado. Mas a gente vai lutar pra que ele permaneça lá. Não sei se tá no desenho do parque, se não tava, a partir de agora tá.
P – Eu acho que caminhando assim, talvez pro finalzinho, eu queria que você pensasse quando você era criança. Se você for fechar o olho e imaginar como era o Morro Grande, como que você descreveria o que você tava vendo ali naquela época? Da paisagem, do bairro, como que você descreveria ele?
R – O Morro Grande sempre foi um local calmo, um local bom de se viver. Até pelo morro, até pela pedreira que tinha ali do lado, a gente escutava muito o alarme às 11 da manhã e às 5 da tarde, então a hora que tocava o alarme era a hora de se esconder porque as pedras voavam, literalmente. Mas é um lugar muito bom de se viver, sim. Assim como é hoje. Um cantinho mais calmo, mais reservado. Então a memória que eu tenho do Morro Grande é essa. Um lugar bem aconchegante, bem legal de se viver, sim.
P – Bacana. Bom, quer deixar alguma mensagem final?
R – A mensagem que eu tenho pra deixar é que as pessoas deem uma oportunidade pra gente mudar. Que as pessoas se desarmem pras coisas que a gente tem pra trazer pro Morro Grande. Não é falar somente de política, mas é falar de melhoria. Falar de que a gente pode ter. Que a gente pode sim ser o exemplo. Que a gente pode ser um parâmetro mínimo de coisas boas pra nossa região. Que as pessoas elas se juntem, elas acolham a dor do outro. Pra gente realmente ser um bloco que vai ser mais respeitado pelos políticos, vai ser mais respeitado pelo poder público. E a gente consiga trazer tudo o que a gente imagina pra ter um bairro cada vez melhor.
P – Tem alguma pergunta?
R – Eu tinha um milhão de coisas pra falar, mas eu esqueci tudo. Igual lá na festa do Morro Grande, fizemos o aniversário do Morro Grande. Eu falei: "não, eu vou usar o palco dessa vez. Agora eu vou subir no palco, vou falar tudo, vou apresentar todo mundo, vou chamar o Vitor. Gente, aqui é o grupo que trabalha com as memórias do Morro Grande. Já intersegue todo mundo aí agora. Quem não seguir vai ficar um ano sem beijar na boca". Ia falar tudo, não falei nada, não usei o palco, não consegui fazer nada. Virou uma bagunça, meu. O Moreira Júnior subiu pra cantar. Aí eu falei: "o Moreira Júnior cantou, ele vai pro camarim, vai tomar um refrigerante e tal". E aí a gente vai começar a organizar o próximo show. Vieram 50 crianças pra cima dele. Já me foi uma hora e meia só de foto com o Moreira Júnior. Então você imagina, o Vitor vai montar lá o Memórias do Morro Grande. Vai ser tranquilo, o pessoal vai passar, vai olhar. Encheu de gente lá na porta. Aí toda hora alguém chamava, queria mostrar. As tias queriam mostrar as fotos. Tinha morador que os irmãos estavam lá na foto. Foi bem mais interativo do que eu imaginava. E a gente não fez. É igual o que eu pensei ontem. Falei, eu vou falar dessa forma, vou contar assim. Esqueci tudo.
P – Mas eu acho que é o começo. Eu acho que a gente sempre vai retomando. Porque a gente sempre muda de percepção, sempre lembra de algo novo. Então eu acho que a gente sempre vai tomar essa memória e registrando pra ela não se perder. Porque se a gente não registra...
R – Falar pra você que eu nunca tinha parado pra pensar no passado. Não que foi alguma coisa ruim. Não que eu esteja fugindo do que aconteceu no passado. Tudo normal. Nós somos crianças normais. Aprendemos. Como as crianças normais, brincamos, fomos pra escola. Mas era muito um cotidiano comum pra gente ali. Então a gente brincava, brincava de bolinho de gude, brincava de tudo ali. Mas isso era o nosso mundinho. É difícil retornar praquilo ali e lembrar de muita coisa. Alguns pontos específicos. Depois de adolescente, sim. A gente já lembra um pouco mais. E agora que a gente tá mais ativo. Mas voltar e buscar as coisas é um pouco difícil. É um trabalho. Acho que a gente pode pensar em uma outra hora fazer um outro trabalho. E aí buscar mesmo. Conversar com os parentes antes de vir e tal. Fazer uma pesquisa interna. E talvez acho que dá pra lembrar. "Lembra aquele dia?" Eu até ia montar um grupo pra falar com as minhas tias. E elas iam me ajudar a lembrar. Mas não deu tempo porque foi um pouco em cima da hora.
P – Dá pra fazer uma roda de conversa com alguém. Gravar roda de conversa, né?
R – Legal. Acho que é bem bom.
P – A gente só para pra pensar na memória quando a gente é realmente estimulado a pensar nela.
R – Lá na Rua do Perdão é um lugar legal. Eu tinha me afastado um pouco de lá. Porque a vida vira uma correria só. Mas é um lugar legal. Porque ali a gente se reunia pra copa. Se reunia nas festas juninas. Era um típico lugar do Morro Grande. Era a Rua do Perdão e ainda é até hoje. É legal. Tem bastante coisa pra tirar dali. E um pessoal bem territorialista. Não só do Morro Grande que não se misturava com a Vila Iara. Quanto da Rua do Morro Grande. Quem era da Rua 4 não podia ir na Rua do Perdão namorar com ninguém. Não passava. Olha, a menina dali tá namorando com um cara lá da rua de baixo. Ele não passava na rua. A gente era bem territorialista. Era bem legal.
P – E você acha que isso mudou hoje?
R – Mudou, mudou. Hoje mudou. Hoje a gente nem conhece os vizinhos. O portão da minha casa fica aberto com o portão da casa na frente. A gente nem olhava pra atravessar pra entrar numa casa. Tem vizinho que a gente nem conhece hoje. O pessoal não participa, não sai na rua. Mal fala bom dia. Então isso aí mudou, com certeza.
P – É tão complicado isso, né? Pensa, antigamente a gente sabia o nome de cada um que tinha ali. Agora, e mudou rápido, né?
R – Eu tenho um grupo de segurança do bairro, WhatsApp, que é pra falar: "olha, tem um carro parado na rua de cima. Estranho". Aí o vizinho: "não, entrega". O outro: "não, peraí, então vamos chamar a polícia". Que é um vizinhança solidária, só que sem a polícia no meio, porque o programa não se estendeu pro nosso bairro lá, então a gente não conseguiu fazer direto com a Polícia Militar, e fizemos entre nós. E tem um grupo de empreendedores também, que cada um coloca lá o que quer. Estou vendendo uma sapatilha usada, até serviço de lavagem de carro, de carreto. Estou precisando de um eletricista. Aí o eletricista já levanta a mão. Aí a gente consegue interagir um pouco lá também.
P – Legal. E como que surgiu a ideia?
R – O Portal, eu sempre deixei à disposição da população, mas chegou uma hora que teve que cobrar pra fazer as postagens, senão ia virar um lixão. Toda hora alguém mandava alguma coisa: "olha, estou vendendo um lençol usado". Aí eu colocar lá, vai ficar horrível. Então eu comecei a cobrar e triar. Então eu cobro pra poder postar, e ainda tem que ter uma qualidade mínima o produto. E aí, eu tenho um grupo, você pode postar lá. "Estou vendendo um espanador", posta no grupo. Acabou de me mandar uma moça aqui, quatro itens: "Pode postar pra mim lá?" "Não dá pra postar, é desapego. Desapego não vai com o que a gente coloca lá. A senhora pode colocar num grupo de desapego que a gente tem também, anexo ao portal, mas eu tenho um grupo de empreendedores do bairro". Aí na pandemia, o negócio bombou, porque aí uma fazia pão, a outra fazia bolo, o outro cortava cabelo em casa. Então aí o grupo foi crescendo e a gente tem até hoje. Então eu pensei em dar uma divulgada a mais, mas aí a gente perde o controle. Aí entra um golpista lá, vende uma coisa que não entrega e a responsabilidade vem pro administrador. Então eu estou até com um problema aqui, de uma menina que mandou fazer um copo num comércio que eu postei. E aí o comércio não entregou. Então eu vou resolver. Eu vou ligar pro comércio e falar: "Ó, você pagou aqui a postagem, tudo bem, mas você tem que atender o pessoal do bairro bem". Então eu tenho muito isso com o comércio, muito isso com as coisas que são do bairro. Tem coisa que tem um dever mínimo social. O Mercado Extra tá lá no bairro. Não vem outro mercado grande porque o Extra já tá lá. O Extra é obrigado a tratar as pessoas bem lá. É obrigado, tem um mínimo de dever social de já que tá inserido ali, prestar um serviço bom. Então eu travo guerra com o comerciante o tempo todo no Morro Grande. No mercado do ponto final do Morro Grande tem um local onde eles recebem as encomendas do lado de um ponto de ônibus. Então a gente nem se fala, eu e o dono do mercado, porque eu brigo o tempo todo, a pessoa pra pegar o ônibus tem que ir pro meio da rua, porque ele tá abastecendo o mercado. Não vem outro mercado pra lá também, porque já tem um mercado lá. Então assim, nós temos uma farmácia no ponto final do Morro Grande. Não vai ter outra farmácia, aquela tem que atender a gente bem. E aí a gente vai buscar do jeito que for pra poder fazer com que eles tratem a gente bem. Não adianta que a população não vai deixar de comprar lá. O mercado oeste eles vendem produto vencido, reembalam os produtos lá o tempo todo. Já tive várias guerras, chamei a vigilância sanitária, polícia, fiz de tudo. Você pode olhar lá no portal que tem várias postagens a respeito de produtos vencidos. E a ideia é sempre a mesma, já que tem um mercado aqui, não vai vir outro, a gente tem que brigar pra que esse trabalhe bem. Daí não é só o mercado, é o posto de saúde. Temos um posto de saúde, não vamos ter outro. A gente tem que fazer esse aqui funcionar. Temos um time de futebol que é do bairro. Por que o gestor não tá fazendo direito o trabalho lá? Peraí. Ah, mas ele é, né? Ele é. A gente não quer ser presidente do time, a gente quer que trate bem o que é histórico nosso, que é patrimônio nosso lá. Se tiver que brigar com você que tá administrando a parte de Memórias do Morro Grande, a gente vai brigar com você, porque aí você já tá fazendo. E tem que ser o melhor possível, a população ela merece o melhor, né? Acho que é isso.
P – Fiquei curioso, porque eu também não sabia que o portal tinha vários outros subgrupos. Eu queria saber como surgiu essa demanda e quantos que tem hoje, né?
R – O portal ele surgiu porque eu tinha uma ótica. Eu precisava divulgar a ótica. E eu, como eu trabalhava na polícia militar, eu tinha informações nos grupos da polícia de coisas que estavam acontecendo. E eu abastecia o Portal do Ó. Portal do Ó, legal, Freguesia do Ó, mas aí, tipo, tá faltando, não tá chegando. Ele já tava sobrecarregado lá com muita coisa. Eu vou fazer um jornalzinho do bairro, chamava Morro Grande Vila Iara, depois roubaram o meu nome, Morro Grande Vila Iara, chamava Morro Grande Vila Iara, e eu, depois que tiver alguns seguidores, eu posto minha ótica lá. Só que aí caiu uma árvore lá na Rua 8, na Francisco Mascarenhas, e o pessoal: "Ó, tem como postar aí a árvore que caiu?" Falei: "Pô, beleza, vou postar a árvore". Já era, perdi o portal. Virou do bairro. Então é um equipamento do bairro. É comunitário mesmo, é pra população. A gente tem que fazer a conciliação, a gente tem que fazer a mediação do que vai pra lá ou não. E tem muito da minha opinião também. Não tem como não ter identidade. Mas é o bairro que usa. E dali a gente passou a coordenar, porque é um bairro pequeno. Todas as outras coisas. "Ah, tá com problema de segurança". Ta aí, vamos montar um grupo. "Precisa fomentar os empreendedores". Vamos fazer um grupo, mas vamos fazer uma feira de empreendedores depois que a gente puder. Agora a gente já pode, vamos fazer uma feira de empreendedores. Fazer o pessoal mostrar o trabalho deles. "Ah, teve o aniversário do Morro Grande". Três dos artistas que se apresentaram no aniversário do Morro Grande esse ano moram no Morro Grande mesmo. Miguel Gonçalves dos Reis, Xavier da Silva Ferrão, e outro mora na Pedro Velasco. Então, a menina do sertanejo mora no Morro Grande, a banda que tocou lá, de pop rock eles moram, todos os meninos moram ali, e o MC que cantou mora na Maria Nazaro da Silva. Não tivemos o que tem em todos os aniversários, mas tivemos sim, os artistas do bairro. E a ideia é essa. Usamos a ferramenta do aniversário para poder fomentar ali a parte dos artistas. E vamos fazer feiras culturais, feiras de empreendedores, para poder colocar os artesões e os empreendedores lá também. A ideia é essa, para a gente mobilizar tudo o que puder, levantar poeira lá.
P – Legal. E eu fiquei em dúvida aqui, eu queria que você falasse um pouquinho mais, porque você defende muito que o Morro Grande é o Morro Grande. E aí a gente vê gente que fala assim: "ah, não, o Morro Grande é da Freguesia, o Morro Grande é de Pirituba, o Morro Grande é da Brasilândia". Aí eu queria que você falasse um pouco mais sobre isso.
R – Eu? Vamos lá. Você conhece a Freguesia? Vai lá no Lago da Matriz, disca 190. Conta no relógio quanto tempo vai chegar uma viatura. Vai lá no Morro Grande e liga 190. Fala que o seu vizinho está fazendo barulho. E vê quando vem. Não vem. Eu cheguei a ligar 30 vezes. O Morro Grande é a Brasilândia. Todas as dificuldades que a Brasilândia tem, o Morro Grande também tem. A Freguesia do Ó é bem elitizada. Realmente. Tem os bares, tem tudo lá. Então não faz sentido nenhum a gente inserir o Morro Grande como Freguesia do Ó. Eu sei que no mapa está a Freguesia, eu não sei quem é que fez, quem foi que desenhou, mas pra mim o Morro Grande é a Brasilândia e se a gente puder inclusive mudar isso aí, a gente vai colocar o Morro Grande na Brasilândia. Sei que a parte imobiliária valoriza mais, falar que é Freguesia do Ó. Pra algumas pessoas que têm um pouco mais de ego, falar que mora na Freguesia do Ó é melhor. Mas qualquer um que conhece a estrutura do bairro sabe que faz parte da Brasilândia.