Núcleo Memórias do Morro Grande
Realização: Coletivo Memórias do Morro Grande
Entrevista de: Selma Pires de Araújo Domingues
Entrevistado por: Rafael Maenza, Vitor Stalmann
Presentes no dia: Rafael Maenza, Vitor Stalmann, Fernanda Siqueira, Augusto Domingues e Lucas Oliveira
Local/Data da Entrevista: São Paulo, 26 de julho de 2025
Código: MMG_HV003
Transcrito por: Vitor Stalmann
Data da Transcrição: 21 de setembro de 2025
R/1 – Meu nome é Selma Pires de Araújo Domingues, tenho 63 anos, nasci na Vila Brasilândia.
P/1 – E qual que é o nome dos seus pais?
R/1 – Adalberto Martins Geraújo e Dagmar Pires Machado.
P/1 – E os seus avós, você lembra?
R/1 – Eu lembro, assim, muito pouco. Eu lembro o nome, mas eu não lembro deles, porque quando eles faleceram, minha mãe ainda era muito nova, então a gente não teve contato. Eles vieram da Bahia, bem lá do Nordeste mesmo, bem do fim do… Lá nos Cactos. Então, nós não conhecemos os meus avós, nem por parte de pai, nem por parte de mãe. Então era só pai e mãe mesmo, e o restante da família, que é bem grande.
P/1 – E sua família veio para São Paulo por quê?
R/1 – Para melhorar. Veio meu pai primeiro, e minha mãe era do mesmo lugar, de Urubó, lá na Bahia, e eles se reencontraram aqui. Depois minha mãe veio, se reencontraram, porque sempre tem aqueles núcleos, né, que se encontram no fim de semana, e acabaram se casando, e vieram morar na Brasilândia, e nós, eu e meu irmão, né, nascemos aqui mesmo, já começamos a nossa vida aqui na Brasilândia, no território da Brasilândia.
P/1 – E vocês são em quantos irmãos?
R/1 – Eu tenho um irmão, é o Célio Pires, e tem um que a minha mãe criou, o Roberto Carlos Machado. Minha mãe criou desde pequenininho, então nós somos em três.
P/1 – Bom, queria que você me contasse um pouquinho da sua infância ali na Brasilândia.
R/1 – Minha infância, como eu nasci ali mesmo, praticamente onde eu moro, porque eu fui morar lá com três anos, era uma infância muito gostosa, né, que hoje a gente não vê mais. Era uma infância de brincar na rua, e eu no meio de dois meninos, né, então era soltar pipa, carrinho de rolemã, bolinha de gude, e tudo mais, além das bonecas, e tudo mais. Casinha com as amigas, a gente brincava muito na rua, rua sem asfalto, de barro, sem encanamento, com poço, puxar água no poço, fossa no quintal, então nós começamos há 60 anos ali, onde eu moro. Estou há 60 anos ali na Brasilândia. Uma infância muito rica, muito boa mesmo, perdi meu pai muito cedo, com 10 anos, então a gente já passou por muitas dificuldades, mas até então eu não sabia o que era dificuldade, né, porque criança, qualquer espaço, brinca qualquer espaço, se constrói tudo, né. Criança é diferente. Então nossa infância foi muito rica, apesar do meu irmão mais velho ser 8 anos mais velho que eu, então a gente teve uma distância grande. Ele era meio cuidador, meu pai faleceu, eu tinha 10, ele tinha 18, ele entrou à frente da casa, então ele era irmão e pai ao mesmo tempo. Ele assumiu esse papel de pai. E assim foi a nossa infância. E eu procurei fazer a mesma coisa com os meus filhos, brincar muito, não era a época de telas, né, não era a época de telas, ia muito na biblioteca, ia muito na biblioteca, ali perto da Petrônio Portela, que é infantil, tem aquela infantil, a gente ficava lá a manhã inteira lendo, brincando, ia para os espaços brincar, brinquei muito com meus filhos. Então eu trouxe a infância deles, tentei fazer da infância deles bem gostosa também, como foi a minha. Infelizmente meus netos não estão tendo a mesma oportunidade, porque as telas, né, tomaram conta e tá difícil.
P/1 – Bom, eu queria que você me contasse o que que seus pais trabalhavam naquela época?
R/1 – Meu pai, quando meu irmão fez o estudo de quando Brasilândia, surgiu, nós descobrimos que meu pai foi o primeiro, tá até lá na matéria dele, né, que ele foi o primeiro vidraceiro da Brasilândia. Então ele era vidraceiro, ele foi o primeiro vidraceiro que surgiu ali no bairro. Ele trabalhava em grandes construções, empreiteiras, né, de prédios e tudo mais. Ele era conhecido como Betinho, ele chamava Adalberto, então era conhecido como Betinho. E minha mãe era dona de casa e ao mesmo tempo costureira, ela costurava em casa, para oficinas, porque ela queria cuidar de nós. Na nossa época, as mães não saíam tanto para cuidar dos seus filhos em casa, então minha mãe ficou mais em casa mesmo e costurava e a gente ajudava ela em casa.
P/2 – Eu gostei de falar sobre isso, o primeiro vidraceiro ali do bairro, você lembra de você interagir com esse trabalho dele ou da sua mãe ali, alguma coisa?
R/1 – Sim, com meu pai, é assim, aquelas massinhas, né, de pôr no vidro, ele trazer para casa, a gente não tinha massinha, então aquela massinha era da gente brincar, ele deixava brincar. Às vezes a gente ia com ele, quando era casa de alguém conhecido, meu irmão trabalhou muito tempo com ele, ia com ele para ajudar a colocar vidro, então tinha isso. E minha mãe, como era costureira, às vezes ela pegava de oficina, a gente ajudava nos remates em casa, todo mundo, meu pai, minha mãe, meu irmão, a gente sentava, todo mundo ia fazer os remates, dar os nozinhos, cortar linha, era muito bom, era assim, uma infância boa, sem televisão, que a gente não tinha televisão, né, no início, depois que fomos conseguir ter uma televisão branca e preta, não tinha televisão, então era mais brincar com a luz, fazer brincadeira com sombras, era uma infância que hoje, como pedagoga, agora estou aposentada, porém, eu estive até abril como coordenadora de um CI, eu gostava muito de trazer essa infância para as crianças, o brincar, como essa importância do brincar, porque as nossas crianças não têm mais isso. E por quê? Porque os pais trabalham muito, hoje em dia as mães saem, os pais saem, então chegam em casa, tem uma outra jornada, então para aquela criança não atrapalhar é o celular, é a televisão, é o joguinho, então o pai não tem mais tempo, então a gente, eu como coordenadora trazia muito isso, vamos brincar, vamos trazer a infância para essas crianças, a infância que nós tivemos, você tá entendendo, é bem gostoso isso.
P/2 – Você comentou sobre os arremates com a família, todo mundo fazendo ali junto, tem alguma outra lembrança de coisas que você fazia com as outras pessoas da família? Alguma coisa que juntava todo mundo?
R/1 – Ah, era os almoços, os jantares, a gente tinha muito disso, meu pai gostava de contar muita história, histórias de assombração, ele, o irmão dele, então a gente ficava eu e meu irmão morrendo de medo, mas ali, e eles contavam muitas histórias e assim, e a gente tinha isso, meu pai era aquele nordestino que tinha as tradições, São João para ele tinha que ser comemorado, mesmo estando aqui em São Paulo, então tinha a fogueira, ele já saía de manha, já deixava o dinheiro para minha mãe: "não esquece de comprar", hoje fala biriba, né, era os traque, os traque, coisas para fazer a fogueira, quando ele chegava, tinha o milho, a batata doce, ele fazia essa comemoração de São João, que era para ele, então era quando reunia todo mundo em volta da fogueira, era muito gostoso, e outra coisa que a gente não tinha e hoje em dia é muito, a gente não comemorava do dia 24 para o 25 para o Natal, não tinha isso, dia 24 a gente ia dormir, dia 25 sempre tinha algum presente atrás da porta, tinha algum brinquedo, algum presente, mas no dia 25 aí fazia o almoço, mas não tinha essa tradição que hoje em dia tem 24, eles não comemoravam, meu pai não tinha isso, e era muito gostoso, porque a gente criança não via a hora de dormir cedo, para acordar muito cedo, para ir atrás da porta e trolar o brinquedo atrás da porta, e era legal, a gente pegava os brinquedos e ia sair para a rua, cada um com seus brinquedos para mostrar para os amigos, e era muito gostoso, eu acho que eu tenho memórias muito boas da minha infância, foi muito gostoso, foi uma infância difícil? Foi, sempre fomos muito pobres, mas não de amor, de carinho, de cuidado, mas a gente nunca passou fome também, não é que passamos fome, não, não passamos fome, fomos felizes.
P/2 – Legal, isso das festas na rua, hoje em dia realmente tem muito esse privilégio, mas lembra de mais alguma coisa que faziam na rua?
R/1 – Na rua? Muito, ficar até tarde jogando, jogando queimada, amarelinho, até as mães vinham bater corda para a gente, a gente ficava até tarde na rua, porque não tinha essa televisão como tem hoje, que você tem televisão, tem computador, para você tirar uma criança de casa, aí fala, mas eu tenho uma neta que não gosta nem de ir no cinema, ela prefere ficar no celular ou no computador. E nós não, era a rua mesmo, com meus amigos, nós tínhamos, a nossa rua era muita molecada, muita. Quando começou os encanamentos, encanar esgoto, tinha aqueles canos enormes de cimento, era da gente brincar de esconde-esconde dentro, era correndo, entrando dentro dos canos, saindo pelo outro lado, aquela rua de barro, era muito bom. E até hoje eu tenho muita gente que ainda mora na mesma rua, hoje em dia com mais de 60, a gente se olha, se cumprimenta, um falou: "Oi, tudo bem?". Tem seus filhos, seus netos, está todo mundo por ali. Você está entendendo? É bem interessante. Era uma rua muito integrada. Depois, na adolescência, eram os bailinhos, todo mundo, aqueles que tinham os bailinhos na garagem, aquela música tocando, era isso. E a gente teve essa... É muito gostoso, sinceramente. E assim, aí na adolescência, como eu disse, meu irmão já era maior, tinha oito anos a mais, ele conheceu um pessoal na faculdade, que ele fazia jornalismo, do teatro, aí trazia o pessoal lá para casa para fazer aqueles exercícios de teatro, aí eles fizeram arte na praça, que era ir nas comunidades, a gente falava, era favela mesmo, e levava brincadeira para as crianças, levava arte, levava poesia, e era muito gostoso. A gente ia para a favela e eu ia com meu irmão. E assim, eu aprendia a gostar muito de música, tudo com ele, que a gente tinha esse... Ele sempre teve o gosto pelo MPB e me trouxe isso. Até hoje eu gosto muito, escuto, gosto bastante, mas foi um gosto da adolescência, que eu acabava indo. E foi bem na ditadura, cheguei a ir em comício do nosso presidente agora, escondido com ele, minha mãe nem sabia, ele me levava escondido, e era assim, era gostoso. Aquele negócio do proibido bom, a gente ia, porque era metalúrgico, lá fazendo os comícios, a gente ia junto, eu ia junto com ele. A adolescência foi meio que assim. E a gente foi fazer arte na praça e começou, eles ajudavam, tipo, os barracos estavam caindo, eles iam lá, ajudavam com madeira, reconstruir para não cair, ajudavam bastante o pessoal desse teatro que eles tinham. Eles fizeram até revistas, Aldeia, que eles tinham a Aldeia, com várias colaborações, com poesias, histórias, aí passou para a pracinha ali onde é a Estrada do Sabão, eles depois trouxeram arte na praça para ir para a Estrada do Sabão. Eu participava junto, eu sempre estava ali nas beiradas, junto, adolescente, 13, 14, 15 anos junto. A infância foi indo junto com a adolescência. É um caminho que nós traçamos ali bem gostoso, de união, de prazer.
P/2 – Você comentou um pouco sobre brincar ali no encanamento que estava chegando e tinha construção acontecendo, alguma coisa ali e brincavam... O que mais você lembra dessas mudanças? Era de um jeito e aí foi mudando, quando foi isso?
R/1 – Ali não tínhamos nada. Tinha o cinema na Brasilândia, que era todo domingo à tarde, vamos para o cinema, a gente era meio viciada, só tinha... todo domingo era o mesmo filme, mas a gente assistia do mesmo jeito. E hoje em dia não tem mais esse lazer. Tinha os parques, o parque na vila, para a gente ir lá brincar, escutar aquelas músicas do parque, era muito gostoso. Hoje em dia a gente não vê muito... é muito espetáculo hoje. Antes não, era aquele parquinho mesmo, o circo, aquele circo, mas não é aquele circo gigantesco que é agora, aquele circo com palhaço, com mágico, que hoje em dia, nós fomos no circo, não lembro o nome, o palhaço não estava vestido de palhaço, ele era uma sombra, ele fazia aquelas brincadeiras que não era, como eu, eu tenho uma prima, nós somos prima-irmãs, e ela olhava para mim: "cadê o palhaço da nossa infância? Cadê o palhaço?". E não era o palhaço, não tinha mais, e é diferente, mudou muito, a Brasilândia, o território todo aqui, não tinha essas avenidas, essas avenidas grandes, esses mercados grandes, era a mercearia, que a gente ainda comprava com caderneta, tinha caderneta, ia lá, eu roubava para caramba, era criança, marcava o que queria, e depois o pai ia lá e pagava, e hoje em dia, grandes supermercados, não tinha prédios, hoje em dia, o nosso território está ficando, só subindo, as casas estão diminuindo, cada espaço, às vezes, de dois terrenos já fazem um prédio, está ficando apertado, o trânsito está insuportável, coisa que não tinha, as casas não tinham garagem, difícil uma casa ter garagem, porque ninguém tinha carro, era tudo no ônibus, transporte público, hoje em dia, quem não tem carro, dificilmente, cada casa, às vezes, tem dois, três carros, os carros na rua, a gente passa pela Parapuã, tem aquele prédio que construiu sem garagem, então os carros ficam todos na Parapuã, fazendo um trânsito sem igual, hospitais, a gente não tinha hospital, a gente não tinha hospitais, era mais Santa Casa, Hospital das Clínicas, hoje em dia, não, nós temos alguns hospitais, tinha o Penteado, agora tem o Brasilândia, que dizem que tem um bom atendimento, eu não sei, que ainda, graças a Deus, não precisei, então está tendo um bom atendimento, foi uma luta grande, todo mundo achava que o Hospital Brasilândia não precisava, porque já tinha um penteado, não precisa de hospital mais, foi uma luta grande, foram brigas sérias, no entanto, ele está lotado todos os dias que você passa, todos os dias você passa em frente, você olha lá dentro, é lotado, e como que não precisava, quando que a gente não precisa de hospitais, não tinha, tá tudo muito diferente, eu acho que isso é o desenvolvimento, nós também não paramos no tempo, a infância era uma, era boa, hoje nós temos que fazer, quando os nossos filhos, netos, tiverem grande, vamos falar da infância deles, que foi boa do jeito deles, do jeito deles, porque eu acho que cada um tem o seu tempo. O tempo lá da minha mãe, ela trabalhava na roça, a infância dela, e eu já não trabalhei na roça, eu fui trabalhar com 16 anos, você está entendendo, e eu tive uma infância diferente da minha mãe, minha mãe falava que era boa, que elas cantavam lá na roça, era trabalho? Era, mas elas se sentiam bem, eu me sentia bem, eu acho que meus netos também vão se sentir bem, vão falar "a minha infância foi legal, foi bacana", cada um no seu tempo, porque as coisas mudam, ainda bem, mudam, mas eu acho que as memórias não devem ser esquecidas, hoje em dia, tentam fazer, eu acho que mudou, as escolas, é assim, não digo todas, "ai, não pode ter mais comemoração, falar que é festa junina, porque é da igreja, tem santo", isso é uma tradição, não pode morrer, não pode morrer, porque senão as nossas memórias acabam, não é verdade, as nossas memórias vão embora, e essas memórias são muito boas.
P/2 – Que curioso, você falou que todo domingo no cinema vê o mesmo filme, lá no cinema da Brasilândia, lá no Morro Grande, certo?
R/1 – Não, tinha na Brasilândia mesmo, na Parapuã também, tinha o da Morro Grande, mas tinha o da Brasilândia, agora não lembro, acho que é onde é, ali perto do Plus, era assim, era muito legal, era um cinemão ali, era um cinema grande, bom, ia assistir Roberto Carlos, Ritmo de Aventura, e Santo, que era um de luta, tinha esse de luta, tinha outros, mas esses eram tão frequentes, que a gente assistia, porque eles não traziam muitos filmes, era mais difícil. Hoje em dia tem filme, a gente vê que os CEUs todo dia trazem filmes que estão aí no auge, e já passa, eu acho que era muito caro, eles não traziam muito filme, mas a gente gostava de ir, do mesmo jeito. Minha mãe, meu irmão era viciado, se ele não fosse, ele... E as paqueras, né? Eu não, era mais infantil, mas ele já era adolescente, ia às paqueras, no cinema, não tinha muito lazer, não tinha lazer no bairro. Hoje em dia tem mais lazer, porém a gente não procura os lazeres que tem no bairro. A Casa de Cultura da Brasilândia tem muita coisa, eu fui no show da Luciana Mello, lá, não tinha ninguém, não tinha quase ninguém, aquela mulher cantando barbaridade, não tinha quase ninguém, a Possi veio, não tinha ninguém, ela veio com a banda, mas ela fez uma roda de música, assim, por quê? "Ah, é no bairro". E antes a gente não tinha nada disso, pra ir pra procurar alguma coisa, igual hoje em dia os nossos filhos e netos, eles falam "eu quero isso", você dá um jeito e compra. "Ah, eu não gosto de tal comida, não gosto disso", não tinha isso, pra gente ganhar um bombom Sonho de Valsa? Nossa, esses dias a gente tava falando, minha prima. "nossa, quando é que a gente ganhava um Sonho de Valsa?". Era o sonho nosso ganhar um Sonho de Valsa. Hoje em dia, ninguém nem quer Sonho de Valsa mais, né, então as coisas mudaram muito, muito, muito.
P/1 – Eu queria saber um pouquinho, voltando mais uma vez para o cinema, se você poderia descrever como que era a construção?
R/1 – A construção do cinema? Olha, era bem parecida com os cinemas de hoje, não com tanto conforto, eram cadeiras duras, mas é mais ou menos o que nós vemos hoje. Aquela tela enorme que encantava, que eu ainda sou encantada pelo cinema, né, eu gosto muito de ir ao cinema, então aquele, aquela tela imensa, aquele som, era muito bom. Não tinha a qualidade que tem hoje, lógico, as imagens não eram aquela qualidade, as cadeiras não eram igual hoje, a almofadada, aquela cadeira dura, mas era igual, era igual, assim, o mesmo formato, era grande, com luzes, com lanterninha, com tudo, era muito interessante. Mas aí, como acho que não traziam muitos filmes, chegou uma hora que acabou, né, acabou, virou loja, depois foi virando outras coisas e assim por diante. Mas era bem, não tinha muita diferença do, assim, a diferença é que agora está bem melhor, está confortável, o som é melhor, tem acústico, mas para a época eu acho que era sensacional. Eu lembro que sim, muito bom.
P/2 – Você comentou sobre o hospital, ter sido uma luta também do bairro, da comunidade, que é importante ele, e ao mesmo tempo que você e seu irmão faziam esse projeto na praça, das artes na praça, como você enxerga esse movimento seu de fazer essa luta? Como você lembra dessas lutas?
R/1 – Essas lutas não eram minhas, não eram minhas, eu entrava de ali, como telespectador e auxiliar, mas não foram as minhas lutas. O hospital foi mais uma luta, assim, que eu digo, foi o jornal de bairro que ele tinha, era bem atuante, ele acabou brigando com muita gente, porque as pessoas postavam, "para que esse hospital? Esse hospital não tem necessidade, é uma coisa que vai gastar o dinheiro, se já tem um hospital, isso e aquilo". E foi uma briga séria, a comunidade se juntou, um vereador foi junto e ajudou nesse encaminhamento de acontecer o hospital. O Fazendinha, que antes... agora o hospital pegou uma parte, mas o Fazendinha era o que nós tínhamos de melhor, cultura, lazer, o esporte, era muito interessante o Fazendinha. Porque nós não tínhamos nada, é como hoje em dia as Fábricas de Cultura, os CEUs, era o Fazendinha, e hoje ainda funciona, tem ginástica, tem futebol, tem muita coisa ainda lá. Ele era grande, ele tinha piscina, ele era um centro esportivo muito grande, e foi uma luta, uma luta que na época do Mário Covas, que foi prefeito, Mário Covas veio visitar o bairro, aí o jornal de bairro trouxe a planta, trouxe, e ele, no palanque, ele fez a promessa que iria ter o Fazendinha. E daí em diante a luta começou e o Fazendinha saiu. E foi uma luta do jornal mesmo, de bairro. Então, eu acho importante essas memórias, o jornal de bairro estar presente, não só para falar dos crimes, como nós vemos hoje em dia. Você tem que trazer isso, porém, você tem que trazer o que a comunidade está precisando, o que a comunidade quer, o que a comunidade conseguiu, quais são os avanços da comunidade, quais são as lutas da comunidade, o que a comunidade está precisando. E isso foi uma luta. Eu acho que é uma luta muito legal, muito assertiva.
P/2 – Tava falando do jornal do bairro, né? Da importância deles. E seu irmão, ele fez parte também do jornal do movimento do bairro, certo? Me fala mais sobre esses jornais, sobre essa comunicação comunitária, sobre a informação que... O que vocês conversavam ali entre si para decidir o que queriam para o bairro? Como que era isso? Não só do jornal, mas de tudo que você lembra.
R/1 – É, assim. Como eu disse, eu era oito anos mais nova que ele, né? Então, eu não participava muito. Eu participava como ali coadjuvante. Bem, só porque as articulações... O Célio é jornalista, poeta. Tem livros lançados. E o jornal começou no quintal de casa, né? Como eu falei, tinha o pessoal do teatro que ia. E isso começou no jornal de casa, no quintal de casa. E a gente via as coisas acontecendo ali. Muita luta, muito sacrifício. Aí ele foi alugando um espaço, foi saindo. E esse jornal cresceu. E ele, até então, não tinha a festa da Brasilândia. Ele levantou, igual vocês estão fazendo com o Morro Grande, ele levantou as datas, a história da Brasilândia, como iniciou o bairro. E nisso começaram as comemorações na Brasilândia, né? O aniversário da Brasilândia. Foi através do jornal de bairro. O jornal de bairro trouxe muita coisa. Muitas lutas. Depois, emprego, gerou emprego, que o pessoal tinha os rapazes que entregavam o jornal, que levavam os jornais, quem ajudava nas matérias, vender anúncio. Então, era uma coisa... não era online. Igual hoje, todos os jornais, tudo online. Não. Era na impressora, ia lá buscar, fazer as entregas, passar de casa em casa jogando o jornal na porta, trazendo a notícia do bairro, as coisas que aconteciam ou que iriam acontecer. Então, foi um pioneiro, né? Foi um pioneiro no jornal aqui, do nosso bairro, que era o Brasilândia News, Frequência News, Lapa News. Era tudo news. Então, ele trazia a Santana, que ele também teve uma luta no jornal com o hospital lá de Santana, ali do Imirim, para a reabertura daquele hospital. Foi uma luta muito ferrenha para conseguir reabrir. O jornal trazia isso, fazia a comunidade saber o que estava acontecendo e a comunidade ir atrás do que estava acontecendo. Você está entendendo? Porque, igual o projeto de vocês, eu não sabia do projeto de vocês. Ninguém nunca falou sobre um projeto desse. E, de repente, tem um projeto na quebrada que está trazendo memórias. Aonde está isso? Aonde as pessoas da comunidade estão sabendo sobre esse projeto? Olha a importância que tem um jornal que traz as notícias da sua comunidade. Então, é gostoso tudo isso. E o jornal era bem importante. Foi mais ainda na época. Depois que começou, porque era uma coisa bem rústica, era uma coisa rústica, ali um sonho que aos poucos foi se tornando realidade. Aí, quando ele faleceu, há quatro anos atrás, ele passou o nome do jornal ficou com o rapaz que trabalhava com ele, por causa de dívidas trabalhistas, os filhos dele não quiseram levar adiante. Então, é um outro, quem trabalhava com ele, que ficou com esse jornal. E hoje eu vejo, às vezes eu dou umas alfinetadas. "Oi, e o bairro? Não está acontecendo nada? Oi, não tem nada de legal?" Porque eu vejo que é só do mercado. O que tem do mercado… Não é só isso que a gente quer saber, não é? Só sobre as ofertas do mercado, ou então assaltos. "Ai, não sei a câmera pegou o assalto daqui". Não, eu acho que é bem mais, sair e pesquisar mesmo o território.
P/2 – O que mais que a gente quer saber do bairro? O que mais você gostaria de saber do bairro?
R/1 – Eu queria saber o que está acontecendo. Igual de vocês, será que não tem mais projetos aí acontecendo? Será que não tem outros projetos? Igual eu que estou aposentada, será que não tem um projeto legal que eu vou e me engajo junto? Não é? Eu estou aposentada, estou em casa desde abril. Eu sou ativa, não tenho problema de saúde, era coordenadora até abril. Será que não tem algum projeto que se for divulgado, eu falo: "Puxa, olha que bacana. Vou lá ser voluntária, vou ajudar, vou fazer alguma coisa". Não tem os problemas do bairro. O bairro não tem mais problemas? Não existe mais problema no bairro. Fora os assaltos, os motoqueiros que estão assaltando todo mundo, não tem mais problema. Será que todos os esgotos estão todos encanados? Será que todo mundo tem água? Será que tem escola para todo mundo? Ou será que tem alguém passando fome? A gente não vê mais nada, você está entendendo? Eu acho que seria necessário a gente ter notícias do bairro. Eu vi que o Legário está tentando, mas ele está tentando pela Globo, ele vai lá e [PÁ] bota alguma coisa lá que o bairro está precisando, porque são lixos que estão sendo lugares viciados. O que nós podemos fazer para esses lugares que estão viciados de entulho e lixo? Será que tem um projeto legal para a gente ir lá? Sei lá, eu acho que estaria bem bacana. Tem um monte de gente querendo se engajar em alguma coisa? Ou será que é só eu? Não é, não sei. É isso, eu acho.
P/1 – Bom, eu queria saber um pouquinho de quando o jornal circula, mais ou menos, de período, na parte impressa. Quando ele começou e quanto tempo ele durou na fase impressa?
R/1 – Eu não sei, eu não sei a data. É assim, foi bastante tempo, foi bastante tempo que foi impresso, foi muito tempo, porque ele começou num quarto no nosso quintal, depois ele foi para Parapuã, ficou um tempo ali na Parapuã, aí depois ele foi para um lugar ali na Freguesia, e depois foi quando comprou lá na Matriz Velha, que a sede era lá, a sede própria ali na Matriz Velha. Foi subindo, entendeu? Então, assim, data, data, eu acho que tem alguma coisa ali, mas data eu não sei, não. É bem longo, bem longo esse trajeto do jornal.
P/2 – Mas mais que data, isso começou no quarto da sua casa? Como é que era isso?
R/1 – Assim, é...
P/2 – Como que foi, seus pais falando [aaa]?
R/1 – Não, ele construiu um quarto na frente, que era o quarto dele, quando ele começou a trabalhar ele construiu um quarto, aqueles puxadinhos que a gente faz, né, nas casas. E aí ele casou, morou no fundo, e aquele quarto ele fez tipo um escritório. E aquele quarto que era dele, quando ele era solteiro, virou a sede do jornal, ali ele fazia jornal, ele recebia os amigos dele, que eram muito grandes, né, ele tinha muitos amigos na faculdade, o pessoal vinha, o pessoal do teatro, eles se juntavam ali, foi a época que ele soube fazer arte na praça, era tudo ali, era centralizado ali naquele quarto, naquele quintal, tudo começou ali. Depois ele foi seguindo em frente e alavancando aí o jornal. O jornal foi crescendo, era pequenininho, né, depois virou um jornal com algumas páginas, tudo isso é a mudança, né, é o desenvolvimento, é a mudança, a modernidade.
P/2 – Já engatando nisso, Selma, o metrô está chegando no bairro, né? Sim. As coisas estão mudando, vão mudar mais, prevê-se que ele vai inaugurar no ano que vem.
R/1 – Uma estação na rua de casa, uma saída da estação na rua de casa.
P/2 – Vai ter outras estações ainda, vai subir mais duas estações além da Brasilândia, Morro Grande e a Velha Campinas, né? Então, o projeto também parte um pouco desse entendimento sobre as mudanças no território, quando chega esse metrô, o que muda. Queria entender as suas memórias sobre desde quando você ouviu pela primeira vez ali que ia chegar o metrô, até agora ele está de fato...
R/1 – Então, essa novela foi uma novela muito comprida, né? Eu lembro que fui numa reunião, numa reunião não, nesses palanque, né? Ali na Matriz, o Padre Noé, ele já era bem… Ele era engajado, e ele falou assim: "Eu quero andar de metrô". Eu lembro disso muito claro, ele falando a luta que estava sendo, mas foi muito grande. Tirar os moradores, desapropriar as casas, desapropriar suas locações. Muita gente não tinha documentação em dia, aí foi depositado em juízo, mas teve que sair. Teve muita gente que tinha suas casas, que levaram a vida construindo e perderam. Por que perdeu. Porque é valor venal que recebe. Então, eles perderam muito. As pessoas que moravam ali na Estrada do Sabão, tudo perdeu muito. Nós tínhamos pessoas muito frustradas, né? Porque a gente sabe que o metrô traz benefícios, mas quem morava acabou sendo prejudicado. As pessoas que moravam ali, né? Então, foi uma luta, e assim, desapropriou, ficou muito tempo ali aquele terreno aberto. Eu tinha medo de invasão, porque ficou muito tempo aberto, né? Ali na Estrada do Sabão, tudo demolido, mas nada acontecia. Nada acontecia. Então, era o medo dos moradores, acabar tendo uma ocupação. Depois ia ser mais difícil para essa construção do metrô. Logo que já foram desapropriadas tantas casas, tanta gente foi prejudicada, não era justo agora ter uma invasão e o metrô não acontecer. Então, era uma preocupação que os moradores tinham. Aí, essa empresa que veio, alavancou tudo isso. E hoje a gente vê a pleno no vapor, né? Porque da minha casa, eu consigo ver a estação, eu consigo ver eles trabalhando. O Tatuzão, aquele monstro que chegou desmontado, a gente vê as peças lá. É monstruoso, aquele guindaste. A gente vê as coisas acontecendo ali, né? Então, quer dizer, está acontecendo. A mudança veio. Pena que tanta gente que lutou não vai estar aí para aproveitar, para ver essa inauguração, para comemorar. Olha, eu lutei e aí está. A comunidade ganhou. Mas é isso. Eu acho que está.
P/1 – Bom, eu queria voltar um pouquinho, mas eu queria voltar, quando você começou a trabalhar. Você falou que começou a trabalhar com 16, né? Qual foi o seu primeiro emprego?
R/1 – Eu fui ser auxiliar de escritório nas Lojas Marisa. No escritório das lojas Marisa. Lá eu trabalhei oito anos. Lá dentro. Foi bem interessante, porque, como eu te disse, eu perdi meu pai muito cedo. Aí meu irmão casou, foi morar. E era eu e minha mãe, né? Então, a gente era... Salário, minha mãe costurando. E foi daí que a gente foi vivendo, foi tentando levar a vida, né? Foi bem. Não fiz faculdade cedo, porque minha mãe, uma que tinha um medo danado de a gente estudar à noite e vir de longe, era aquele. E também assim, eu não tinha dinheiro para pagar uma faculdade, né? Antes não tinha tanta facilidade como tem hoje, porque hoje não estuda quem não tem vontade de seguir em frente. Só não estuda quem realmente não luta para isso. Porque você consegue, mesmo as pessoas menos favorecidas, a gente vê muita gente bem menos favorecida que consegue estudar, porque a leitura é muito importante, né? Ler você lê em qualquer espaço. Em qualquer lugar você lê, em qualquer lugar você consegue estudar. E a gente não tinha essas condições. Eu fui fazer faculdade, eu fiz magistério, fui trabalhar como professora por muito tempo. Fui fazer magistério, fui fazer faculdade em 2012, com 50 anos. Fiz magistério, eu achava que não precisava ir, achei que não precisava, tinha filhos pequenos, fui deixando, deixando. Quando chegou em 2012 fui fazer faculdade. Aí fiz pedagogia, depois fiz psicopedagogia. Aí segui em frente, né? Foi bem interessante. O meu filho mais velho, eu tenho três, né? Do meio, o Rafael, ele falava assim, que ele acha um absurdo, né? Com 18 anos você escolher uma profissão. Ele sempre falou isso. Porque ele tentou história, não deu certo, ele tentou fazer psicologia, também não era aquilo, porque a gente estava forçando, né? Forçando, vamos, tem que estudar, tem que fazer a faculdade. Depois ele se achou, foi fazer cozinha e se achou. Se achou, foi barman e se achou. E ele fala assim, com 18 anos você obrigar um adolescente que está em plena ebulição, escolher uma profissão para a vida toda, ele pode fazer se ele quiser, porque tem algumas pessoas que já vem com aquilo. Eu vou fazer isso desde pequeno, né? Vem, vem. Mas com 18 anos. E eu com 50 eu fiz, e eu me achei, eu trabalhei a vida inteira com o que eu gostava, com o que eu gosto, que é a educação. Eu fiz uma coisa que eu gostava, que eu gosto, não é que eu gostava, eu estou viva, né? Que eu gosto, a educação.
P/2 – Fala mais um pouco sobre isso, você se aposentou agora em abril, né? Como que foi esse processo?
R/1 – Está sendo difícil. Porque eu trabalhei muitos anos, né? E a dez eu estava como coordenadora, mais de dez como coordenadora, em escola grande. Então você, de repente, eu parei. Eu ainda não me achei.
[O celular da entrevista começou a tocar e fomos tentar pegar pra ela]
R/1 – Não, não, não, não, não, não. Então, eu ainda não me achei. É difícil separar-se, porque eu tinha uma vida muito... Eles estavam falando que tem um rapaz aqui que trabalha 48 horas, 48 por 24, e eu estava mesmo nessa vibe. Porque eu gostava tudo, eu gosto tudo para ontem. Então, eu era trabalhando, eu levava serviço para casa, e fazia, e fazia. De repente: "E aí? O que eu faço?". Fiquei em casa, eu tô meio assim, e eu estou me achando ainda inútil. Eu ainda não me achei no meu aposentado, o que eu quero fazer? Porque a gente tem que se achar em alguma coisa, né? Fazer alguma coisa, sei lá. Eu ainda não me achei, ainda estou meio perdida, porque faz pouco tempo, né? Eu tenho que ainda arranjar o caminho aí pela frente. O que eu quero fazer. Eu quero fazer alguma coisa, mas ainda não me achei. Eu não me preparei para a aposentadoria. Porque assim, o corpo diz que você está precisando parar, mas a mente diz que você não está. Então, eu não me preparei para me aposentar. E, de repente, eu me vi que eu tive que me aposentar, porque onde eu trabalhava, como é uma parceira, uma creche parceira, aí eles, quando chega aquela idade de aposentar, eles não querem saber se você está pronta ou não. Tem que aposentar e acabou. Então, tive que sair. "E agora? Faço o quê? Não sei ainda, mas eu vou me achar. Qualquer hora eu me acho no caminho aí". Por enquanto, estou só curtindo os netos.
P/1 – Bom, eu queria só... Eu tenho dois pontos que eu queria fazer.
R/1 – Gente! Falei demais, já!
P/1 – Só dois pontos, daí a gente já se libera, tá bom? E daí é só… Eu queria entender um pouquinho sobre a atuação do Célio que ele teve em relação à história dos bairros. Se você chegou a acompanhar isso, se você lembra como que era a dinâmica dessa atuação que ele teve tão forte, pelo menos nesses últimos tempos que eu estive assistindo ele.
R/1 – Então, eu não tenho muito, assim, porque vocês sabem, né? Cada um vai viver a sua vida. Chega uma hora… Casei, tive os filhos, fui trabalhar. Como eu te falei, eu trabalhava muito. E ele lá. Mas a gente conversava bastante, né? Principalmente na pandemia. A pandemia foi ruim para alguns, para mim e ele foi bom. Porque como ele tinha uma casa em Itatiba, num condomínio lá, fechado, ele se abrigou lá. E a gente ia para lá também. Eu e meu marido fazíamos teste e ia para lá. Porque eu não parei de trabalhar. Como coordenadora, a gente ia para as escolas, né? Virou guardia para ninguém invadir. Então, a gente fazia o rodízio com a direção. E eu trabalhava, ia lá sozinha, ficava na escola sozinha um período, a diretora outro período. Mas, no fim de semana, a gente ia para lá e ficava lá, quietinho, todo mundo dentro, capinando. A gente conversava muito. Então, eu via essa angústia dele, dessas lutas, porque ele lutou muito pelos bairros. Ele ia a fundo mesmo. Tanto é que nós fizemos um lançamento há dois anos atrás do livro dele. Porque ele tem muita poesia guardada, né? Muito, muito. Aí eu tenho uma prima, ela fez esse... Pegou as poesias e lançou o livro dele. Depois que ele já tinha falecido. Há dois anos atrás, nós lançamos o livro dele. E o tanto de gente que veio, aí cada um foi falando, como conhecia tudo. Foi ali na Casa de Cultura da Freguesia. As coisas que ele fazia, que eu não tinha ideia do que ele... As lutas dele, dele estar mostrando a horta comunitária com o pessoal, que ajudou na ponte, não sei de onde, ali da Freguesia, aquela que está indo para o... Ali perto do shopping. Que a luta ali... O pessoal contando que ele estava sempre nas reuniões. Eu fiquei… Eu não conhecia tudo do meu irmão, né? A gente não conhecia. Cada um falando onde conheceu... o seu Rubens, que era um dos gestores daqui, falando sobre ele, a amizade que eles tinham, como foi construída. Aquele Rodrigo, que é do Portal do Ó, falando... Eu falei, nossa, como ele era atuante. E a gente sabia, mas não sabe a fundo, né? O que... A atuação da pessoa. Mas ele era muito atuante. E eu acabei descobrindo muita atuação dele depois da morte. Nesse lançamento, todo mundo ia lá, começou um falando, e todo mundo quis subir no palco e falar um pouco no microfone sobre ele, sobre o que ele fazia. Eu falei, gente, eu não sabia que ele era tão atuante em todo o distrito aqui, né? Freguesia, Brasilândia, sobe para Paulistano, Carumbé, Morro Grande. Eu falei, gente, que interessante, né? A gente vive uma vida, mais de 60 anos juntos, mas às vezes você não vê as lutas, todas as lutas, você não conhece a pessoa tão profundo. Mas eu descobri muita coisa ali. Você está entendendo? A atuação dele era muito… Ele nunca gostou de aparecer, tanto é que nós temos um acervo na minha casa de muitas fotos, mas ele não aparece nas fotos. Nenhuma foto ele tá. Ele gostava de ir atrás, ele ficava atrás. Então, você não... As festas da Freguesia, Brasilândia, onde eu estava dando uma olhada em algumas coisas, em 1999, a primeira festa da Freguesia, ele noticiando como um dos produtores, ele produzia um disco com... artista do bairro todo, ele lançou o Joãozinho Terra, ele que produziu, ele foi produtor, ele que financiou o CD do Joãozinho Terra. Eu falei, poxa, gente, é muita coisa que... Aí eu fico lendo algumas coisas, falo "olha, tanta coisa, foi muita coisa, muitos anos", então é muito... Então é mais atrás, ele não aparecia nas atuações, ficar no palco falando isso. Ele era atrás da produção mesmo, procurando ajudar, mas por trás das câmeras, por trás dos livros, das escritas dele. Hoje eu sinto falta, às vezes eu publico. Se acontece alguma coisa, ele era muito crítico, demais até. Houve muita briga aqui no bairro, foi até... Ele foi jurado de morte, essas coisas, porque ele era crítico. Se ele não gostasse, podia ser do partido dele, porque ele falava e escrevia no particular dele, até no jornal. Às vezes acontecem algumas coisas da nossa política, eu falo, meu Deus, se ele estivesse aqui entre nós, ia ser tão pauleira isso, ia ser tão pauleira, que ele, no dia da cirurgia dele, foi no dia da cirurgia dele, que ele teve um infarto, e pouco antes, ele esqueceu o óculos, e ele estava com o celular. Ele ainda publicou algumas coisas, no dele particular, ele estava lá. Antes de chamar ele para ir para a cirurgia, até o Sr. Rubão falou que conversou com ele no dia que ele foi, e eles conversaram e tal. Ele tinha muito, muito gás pra brigar e ficou briguendo, briguendo. O pessoal fala que ele era muito briguento. Quando ele queria, ele queria, queria de verdade. Bicho ruim.
P/1 – Eu queria saber por que você guardou essas fotografias?
R/1 – Quando ele faleceu, nós fomos na casa dele, né? Lá, com os filhos dele. E muito CD também, porque ele tinha muito livro, muito CD. Os livros, eu não sei o que os meninos fizeram, não sei se eles doaram pra Casa de Cultura da Freguesia, porque era muito livro. Ele era uma pessoa que sempre leu muito. Desde novinho, o pessoal falava assim, a gente ia trabalhar, ele pegava: "aquele loco lá" e eu ficava aqui, ó. Olha, lendo de pé, ele ia no ônibus assim, ó, lendo. E caía por cima das pessoas. Então, ele tinha muito livro. Eu peguei alguns assim, pra mim, que eu achei, mas não deu tempo de ver. Muito CD. E as fotos estavam lá. Os meninos não sabiam o que fazer com as fotos. Eu falei, eu posso levar pra minha casa? Aí, eu vou ver o que são essas fotos. Aí, eu trouxe pra casa. E nisso, ficou lá em casa. O ruim é que não tem muita descrição. Então, eu teria que pegar pessoas com uma idade mais avançada, né? Como nós, as pessoas da melhor idade, pra ver se lembra de alguns lugares. Alguns lugares, eu consigo saber. Outros, não. Outros lugares, eu não consigo saber onde era. E eu vejo que algumas coisas que ele tirava, que acho que depois ele reivindicava. Porque eu lembro que ali na Cachoeirinha, onde é o CCJ, era um lugar perdido lá, né? Era assim, fantasma ali. Vocês são muito novos, então acho que vocês não lembram dessa época. E eu lembro que saía muito no jornal sobre isso, procurando ser alguma coisa. Então, era muita fotografia daquele espaço, pra fazer algo ali. Até que acabou sendo o CCJ, né? Então, tem muita foto, mas não tem descrição. Então, fica difícil a gente saber de onde que eram os lugares. Alguns dá pra ver. A primeira festa da Brasilândia, a festa da Freguesia, algumas. Mas, porque você conhece o espaço. Mas tem espaço, você vê que tem esgoto, tem a céu aberto. Mas não tá descrito atrás o que é. Ele tava começando a catalogar, porque eu vi que algumas coisas estavam ali nos envelopes. Cachoeirinha, vereadora não sei o que, é isso. Então, você vê que tem algumas. Ele tava começando a catalogar. E é muita foto, muita. Agora, a parte do jornal parece que foi doado, né? Todo jornal, a biblioteca do jornal pra Casa de Cultura. Parece, eu não tenho certeza. Mas parece que foi pra lá. Os meninos acho que doaram. Então, foi por isso que eu guardei, porque eu queria ver o que era. Ninguém sabia o que tinha, como as poesias também. Eram caixas, muito caderno, muita coisa. Aí, essa ficou com a minha prima. Minha prima que tá catalogando tudo. E deu um livro. E ela disse que dá pra fazer mais um monte de livro pela frente com as poesias. Foi? Acho que eu já falei muito.
P/1 – Bom, então, eu acho que é isso. Então, essa parte final, geralmente eu deixo livre pra você colocar no seu futuro, deixar alguma mensagem, finalizar, falar um tchau.
P/2 – Uma mensagem, a gente falou bastante de memória, né, que vem do passado. Mas a gente constrói o futuro olhando para o passado.
R/1 – Melhorando, né?
P/2 – Melhorando, entendendo, compreendendo como foi complexo essas lutas, como que todo esse trabalho, toda essa história é importante para todos nós, para o bairro, para a comunidade, para São Paulo, para todo mundo. O Museu da Pessoa em si tem essa vertente que toda história vale ser contada, né? Então, por favor, tenha esses minutos aí pra você mandar uma mensagem pra virar uma memória também no futuro.
R/1 – A única coisa, sim, é não esquecer o passado. A gente não deve esquecer o passado. Porque o passado é importante pra se construir o presente que estamos vivendo e o futuro. Mas não esquecer o passado, que normalmente se deixa o passado é velho. O passado é velho. E não é. Ele começou tudo. Na educação, eu falo muito isso, que eu trabalhei muito com criança pequena. Dar aula pra faculdade é muito fácil. Agora, pra dar aula pra educação infantil, que é o alicerce. É o alicerce da educação. Então, você não começa a casa pelo teto. Você começa a casa pelo alicerce. A educação é a mesma coisa. E a nossa vida é a mesma coisa. Só estamos aqui porque teve um passado. Teve uma história. E a história é importante. Ser contada, ser conhecida. Por isso que é importante as memórias.